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12/04/16

Mafiosa

Foto/montagem: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Sempre gostei dessa coisa de ir ao cinema. Mas confesso, com certa nostalgia e pelos mais diversos motivos, que gostava mais disso nos meus tempos de adolescente. Talvez pelo glamour que envolvia o que eu considerava ser um evento social, na época. Pessoas bonitas, bem arrumadas, a fila, os ingressos, os casais de mãos dadas, essas coisas. Mas talvez, ou principalmente, por conta daquele colorido e estimulante balcão de doces que havia no hall de entrada.

E toda semana lá ficava eu, na torcida que algum namorado das minhas irmãs mais velhas cansasse da distância estabelecida para dois no sofá da sala e tivesse a fantástica ideia de tal programa! Como nem por todos os roteiros de Coppola minha mãe permitiria que alguma delas saísse sozinha com o namorado, sobrava pra mim, no melhor, mais bem recebido e mais doce sentido da expressão!

Óbvio que eu fazia toda uma cena. Reclamava, dizia que não queria ir e tal, só pra dificultar a vida do casalzinho. E claro, obter vantagens açucaradas pelo fato de estar sendo “obrigada” a largar minha divertida monotonia pra viabilizar o passeio dos dois. E lá ia eu, pulando de faceirice, mas convenientemente com cara de emburrada, “segurando a vela”. E segurava, na outra mão, uma porção de pacotinhos com balas, chicletes e várias coisinhas gentilmente oferecidas pra causar distração e comprar o silêncio da pessoa aqui enquanto o casal apaixonado assistia ao filme.

Como toda pentelha que se preza, foi numa dessas ocasiões que acabei descobrindo uma outra maneira até eficaz, mas que depois se revelou um tanto perigosa, de fazer aumentar as vantagens da coisa.

O filme era “O Poderoso Chefão”. Nunca havia visto Marlon Brando mais gordo e ainda não havia me apaixonado por Al Pacino. Não tinha idade nem para estar ali, nem pra perceber a obra prima que estava à minha frente e aquilo tudo me pareceu um saco! O sangue dos mafiosos espirrava na minha tranquilidade e os doces estavam acabando muito mais rápido do que eu queria. Era tudo muito tenso, não rolava nenhum beijo apaixonado, na tela, pra diminuir meu desconforto físico e emocional. A situação era estressante e o filme parecia muito longe de acabar. Me doía a bunda, as pernas e a saudade da minha cama. Inquietação total! Comecei a saracotear na cadeira, balançando os pés e achei bem interessante o barulho que fazia o meu sapato no encosto da cadeira da frente. Comecei a batucar na madeira no mesmo ritmo do tiroteio na tela.

Nem havia adquirido o gosto pela coisa quando o cara sentado ali, sacudido pela minha impertinência, virou-se, me ofereceu uma balinha e pediu, gentilmente, que eu parasse. Aceitei a bala. Achei ele um grosso, mas parei. Por uns dois minutos. Até tentei me controlar, mas minha impaciência não conseguiu entrar no clima. E logo estava eu, de novo, desconsiderando que por minha causa havia alguém ali, aos pulos, tentando ver o filme.

Isso se repetiu algumas vezes (e algumas balas), até que lá pelas tantas ele se virou, visivelmente irritado, e disse: “- Queridinha, toma! Tá aqui o pacote todo! Mas pára de bater na minha cadeira!” Achei ele um grosso, de novo. Mas aceitei as balinhas.

Me aquietei por um tempinho, até o pacote ficar vazio. E recomecei o despropósito.

Finalmente, o filme acabou. Pessoas se levantando, luzes acendendo e coisa e tal. Minha memória seletiva não me permitiu registrar com exatidão o que aconteceu em seguida, mas um arrepio estranho me percorre quando tento lembrar da cena. Quase posso  jurar que foi Don Corleone quem se levantou da cadeira à minha frente, tomou uma proporção gigantesca ao aproximar-se com aquele olhar mafioso e intimidante, botou o dedo na minha cara e disse, com sotaque de buldogue e entre dentes: “- Pirralha chata e malcriada! Agradeça aos céus o filme ter acabado! As próximas balas que eu ia te dar seriam aquelas!” – e apontou vigorosamente a tela.

Que coisa. 

Continuo gostando de ir ao cinema, mas por um certo trauma em relação às balas, prefiro pipoca. E nunca mais consegui ver “O Poderoso Chefão” sem me sentir ameaçada.


Helena Chiarello

21/04/14

Militante sem causa...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal
       
          Não saberia precisar exatamente a data. Faz tempo. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e todo o avoamento e distração pertinentes à idade. 

          Naquele dia, a professora chegou à classe e, ao invés de começar a aula com a chamada e com aquelas intermináveis lições que faziam a hora do recreio ficar a quilômetros de distância da minha impaciência, ela disse: “Tirem uma folha do caderno. Vamos desenhar uma bandeira do Brasil para participar da passeata”.

          Menos mal. Vai ser aula de artes. Mas passeata? Que bicho seria esse? Nunca tinha visto nem ouvido. Passeata. Nem a minha costumeira curiosidade conseguiu ser forte o suficiente para me levar a tirar os olhos e a atenção da caixa de lápis de cor e dissipar a dúvida sobre o que seria aquela coisa.

          A folha do caderno era pautada, o que prejudicou um pouco a minha expressão artística. Caderno de caligrafia, porque tinha “o tamanho ideal para a bandeirinha” – disse a professora. Achei desproporcional. E meu losango ficou meio torto. O círculo mais lembrava um ovo, e a faixa central não foi grande o bastante para comportar a minha “ordem e progresso”. Mas caprichei nas cores. Verde, amarelo e azul, bem fortes. E as estrelinhas. Coloquei várias, porque achava bonito muitas estrelinhas. 

          Tarefa concluída, a professora instruiu sobre como colocar uma ripinha de madeira e fazer o “mastro”. Tudo pronto. Ela marcou o dia e horário: “Amanhã, todo mundo de uniforme, às três da tarde, em frente à catedral”. Não haveria aula por causa da passeata. Perfeito!

          No dia e hora marcados, lá fui eu, de bandeirinha em punho e muito amor no coração. Morava longe da catedral e caminhei pra caramba. Cheguei lá, nenhum sinal do que eu pudesse imaginar que fosse uma passeata. Não havia alunos, professores, uniformes, bandeirinhas, banda de música - conforme alguns disseram. Olhei para todos os lados, procurando por algo que me contasse onde estaria acontecendo a tal coisa. Andei, circulei a igreja, entrei, me benzi, ajoelhei, fiz eco na nave vazia. Por que será que ainda não chegou ninguém?

          Mas “passeatista” que se preza não abandona assim um evento, mesmo que não tenha a menor ideia do que ele seja. Saí procurando por uma aglomeraçãozinha de pessoas, um barulhinho de tambor, uma musiquinha, qualquer coisa que fosse. Até que achei.

          Ao lado da igreja funcionava um grande colégio, que estava com os portões abertos. Ouvi um burburinho e entrei. No pátio coberto, meia dúzia de bancos enfileirados, algumas poucas crianças sentadas neles com a atenção voltada para uma freira, de hábito e tudo, que tocava violão e cantava com uma animação bem contagiante!

          Fiquei parada, à distância, com minha bandeirinha na mão. Será que é aqui a passeata?

          A freira, num gesto carinhoso e sem interromper a canção, me fez entender que sim, com um sinal para que eu me aproximasse. Alívio. Finalmente, a passeata! Entrei, sentei, e fiquei agitando meu símbolo de patriotismo, acompanhando a cantoria. 

          O mais estranho foi a desorganização daquela turma. Ninguém havia feito bandeirinha e nem estavam demonstrando o civismo que era de se esperar numa situação dessas. 

          Claro que estranhei a falta da minha professora e colegas. Claro que estranhei a falta de todos os alunos da minha escola, que pareciam bem animados, no dia anterior, por conta do evento. Mas também, podia ter acontecido alguma coisa e eles não puderam vir, não podia?

          Quando tudo terminou, a freira guardou o violão e disse alguma coisa às crianças, que fizeram fila para o beijo de despedida. Beijei também. Ela sorriu, eu sorri. Virei as costas e fui para casa. Coloquei a minha bandeirinha num vasinho sobre o criado mudo, muitíssimo orgulhosa do dever cumprido.

          No dia seguinte, na escola, minhas amiguinhas vieram me encontrar, afoitas e com ar de preocupação, querendo saber por que eu não havia ido à passeata.

          Mas é claro que eu fui! Cantei, participei, agitei a bandeirinha e tudo, bem como a professora disse pra fazer!

          Nem preciso dizer que fiquei indignada com a falta de atenção das minhas amigas! Dei o assunto por encerrado, com a consciência mais tranquila que alguém poderia ter. 

          Não deve ter levado muito tempo para que alguma alma caridosa me esclarecesse sobre o significado do termo. Então, a ficha deve ter caído com a força de um hino nacional cantado em final de copa!

          Só não sei, até hoje, o que eu estava reivindicando, apoiando, comemorando ou “patriotizando”. E também nunca soube por que a tal passeata não estava onde eu tinha certeza que deveria estar!


Helena Chiarello

30/11/12

"Bença", pai!

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Abrir o baú das memórias e rever as muitas coisas do meu tempo de criança, sempre me faz um bem enorme!

Ali, tem de tudo um pouco: histórias, momentos, hábitos, sorrisos, saudades. Em meio a tantas coisas, há uma casa aconchegante, uma família barulhenta, um momento de oração, um acordeom inesquecível, uma dedicada máquina de costurar e uma vida de união, simplicidades e muitos afetos.

Nem todas as lembranças são felizes, é verdade. Mas há muitas que são, e tão especiais que acabaram incorporadas ao meu jeito de pensar, de viver e de ser. Outras, por tão vivas, chegam a ser presentes e palpáveis.

É muito fácil ouvir a voz da minha mãe determinando o final da “bagunça” e encaminhando a gente pra cama com a ordem:

– “Pede benção pro pai e vai dormir!”

O ritual era sempre o mesmo. O banho tomado, a roupa limpinha, a “fila” para escovar os dentes e, não raro, alguma provocação ou molecagem de última hora no banheiro, o que sempre rendia um pijama molhado e, obviamente, uma bronca ou uns puxões de orelha.

O ritual podia até mudar de sequência, mas o final era sempre o mesmo:

– “Bença”, pai.

Aquilo era lei. E uma lei não muito bem entendida por mim, naquele tempo. Não conseguia perceber a necessidade ou a dimensão daquela frase. Mas obedecia e fazia isso tão automaticamente e, às vezes, de forma tão apressada que quase nem ouvia a resposta.

Mas o tempo sempre se encarrega de dar significado às coisas. A maturidade que cresceu comigo me deu o entendimento e a sensibilidade necessária pra medir o tamanho e a importância desse gesto. Uma bênção, gerada pelo desejo sincero de um coração de pai, é preciosa demais para não ser recebida de mãos e coração abertos! É cara demais pra não ser compreendida, guardada e levada pela vida afora. É tão vital! É tão eficaz! Traz uma segurança, um bem-estar, um conforto e uma paz imprescindíveis! E com o tempo (bendito tempo!) o que, então, era hábito, passou a ser necessidade.

Não tenho mais meu pai comigo. Quer dizer, não tenho mais aquela amada figura física, aquele sorriso franco, aquela voz de sábias palavras e gostosas brincadeiras, aquelas mãos firmes de conduzir e educar, aqueles braços fortes de trabalhar e acolher. Mas o tenho sim, tão vivo nos exemplos, nas atitudes, nas coisas que sempre fez e disse; tão presente em tudo que sempre acreditou e ensinou que é como se o tivesse pertinho de mim, o tempo todo, como antes.

E é por isso que hoje, depois do dia, quando silenciam todos os ruídos e “é hora de dormir”, minha saudade ainda sussurra:

– “Bença”, pai.

E uma quentura gostosa no coração me dá a certeza da resposta:

– “Deus te abençoe, minha filha”.



Helena Chiarello 


16/02/12

Os louros da vitória!

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal
           
           Foi em dezembro. Decididamente.

         Mas não foi uma coisa assim, impensada. Depois de uma verdadeira maratona por pelo menos uma dúzia de salões de cabeleireiros nessa cidade, e experiências não muito bem sucedidas que me fizeram sentir vontade de sair gritando de cada um deles, eu decidi. Vou deixar o cabelo crescer.

       Explico: não é que eu seja assim tão exigente! Acontece que depois de pelo menos uns 10 anos usando o mesmo corte, realizado de forma incrivelmente habilidosa pela mesma pessoa (que já sabia até para que lado os fios pretendiam arrepiar), eu mudei de cidade. E toda mudança implica em adaptações. Ou, pelo menos, na esperança de que elas aconteçam.

       É uma pena que a gente não possa trazer na bagagem algumas coisas que são habituais e fazem tanto bem ao ego, como por exemplo, uma cabeleireira com mãos e tesouras mágicas! E era isso mesmo. Entrava no salão, nem precisava dizer o que pretendia. Uns tique-tiques aqui e ali e pronto! Saía com aquele cabelo curtinho e bonito que, com um pouquinho de gel estrategicamente aplicado, ficava à prova de chuvas e ventanias. E o melhor, pronto pra qualquer evento ou situação, sem nenhum estresse!

       Pensando em manter a praticidade e o estilo, lá fui eu, seguindo as dicas de quem já conhecia a cidade, procurar um salão que conseguisse fazer o corte (o mesmo, apenas o mesmo!) que sempre deu jeito nesses cabelos tão desgovernadamente crespos desde que nasci!

      A primeira vez, deu medo. Aquela tesoura afiadíssima investia em minhas madeixas sem dó nem piedade! E por mais que eu tentasse (educadamente, mas de olhos arregalados e quase protegendo a cabeça com as mãos) orientar a pessoa que a portava para que não radicalizasse demais, não deu outra! Saí do salão com cara de "milico" logo depois do alistamento militar ou recém incorporado ao exército. Um verdadeiro desastre!

       As demais tentativas não foram muito diferentes, nem mais felizes. Nesses dois anos de blumenauense, já experimentei (involuntariamente) de tudo: estilos "escovinha", "ovelhinha desgarrada", "anos 60 em franca decadência", "punk rock", "quase moicano", "faça você mesmo", "meu deus do céu", "mas que droga é essa", etc., etc.

       Ainda bem que cabelo cresce. Demora pacas, mas cresce. Esse foi, por várias vezes seguidas, meu consolo.

      Agora, desisti. O tal "aposte no cabelo curto e fique linda" não funciona direito aqui. Talvez eu não tenha ido ao lugar certo, claro. O fato é que, depois de tantas tentativas e frustrações, resolvi apelar. Pode ser que com um pouco de sorte, eu fique com a cara da Meg Ryan naquele Cidade dos Anjos que gostei tanto. Ou, com um pouco mais de sorte ainda, quando o crescimento estiver mais "evoluído", eu acostume com a ideia, passe a gostar, aprenda a conviver amistosamente com ela e até saia por aí, torcendo que faça bastante vento pra poder copiar aquela pose da Gisele Bündchen na propaganda da Pantene.

       Mas cabelo nunca cresce com a velocidade que a gente gostaria. E mais, ele parece fazer de propósito em estacionar naquele ponto onde não se encontra nenhuma solução estética! Por enquanto, tá complicado. O gel já não funciona, os grampos e presilhas ainda não seguram "a onda", as tiaras não têm habilidade suficiente para fazer milagres e a força da gravidade não está atuando como deveria. Mas como tudo nessa vida tem lugar e hora pra tomar jeito, estou, aflita e impacientemente, apostando nisso!

        Claro que sempre existem compensações: há alguém aqui que está vibrando com a novidade! Um verdadeiro fissurado por louras, longas e crespas madeixas que está empolgadíssimo com a ideia e não mede esforços pra ajudar a superar essa fase de crescimento multidirecional que tem se refletido tão impiedosamente em meu espelho.

     E é desse jeito, entre estímulos e dúvidas, esperanças e desesperos, que sigo tentando essa façanha, pedindo aos anjos (que têm vastíssima experiência em cabelos enroladinhos e conhecem todos os truques para apresentá-los sempre impecáveis e bonitos), que me mantenham firme e forte nesse propósito. Que não permitam recaídas e me tragam os louros (e crespos) da vitória! E que, por favor, façam esse imensurável e insólito esforço valer a pena.


Helena Chiarello

Foto minha: 2 anos depois.. rsrs


16/09/11

Foi sem querer, mas...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

         Era dia de comemoração.

       Saímos pra jantar e a escolha, para obedecer a um roteiro bem eclético, foi um restaurante japonês bastante conceituado em nossa cidade.

       Até aqui, tudo perfeito. Casa cheia, ambiente finíssimo, decorado com aquela belezura de bom gosto oriental, boa música, tranquilidade, ótima comida, excelente companhia. Fomos recebidos com o tradicional irashaimase (sejam bem-vindos), dito com reverência e cortesia por um rapaz que nos conduziu até a mesa.

         Até aqui, tudo bem também.

       Acontece que minha origem italiana e por extensão, ocidental, me possibilitou, ao longo desses anos todos, desenvolver inúmeras habilidades no manuseio dos maravilhosos e práticos garfo e faca. E um restaurante japonês vai te colocar à frente, conveniente e inevitavelmente, aqueles desequilibrados e temperamentais hashis no lugar de talheres. Claro que a gentileza do garçom vai oferecer a outra opção. Mas “em Roma, como os romanos”. Então, aos hashis. Mas claro, optando por aquela esplêndida solução de usá-los amarrados com elástico, o que os transforma numa espécie de pinça para facilitar a vida dos iniciantes. Ou desajeitados, como é o meu caso.

       Apesar de não apreciar adequadamente alguns quitutes in natura da cozinha oriental, sabia que haveria alguns salvadores e saborosos “cozidos ou assados” no cardápio que me livrariam de uma "saia justa" gastronômica. E claríssimo que a escolha do meu prato, como sempre, obedeceu rigorosamente ao critério do “isso é fácil de segurar”.

       Pratos servidos, conversa agradável e descontraída, brincadeiras em relação à minha excessiva concentração no manuseio (ou hashiseio?) dos alimentos, acompanhadas de justificativas de minha parte por conta da exagerada pressão do elástico no meu hashi, que o deixava demasiadamente aberto, sendo necessário um esforço ninja para segurar o que devia ser segurado. E entre risos e brincadeiras, a noite transcorria agradável e festiva.

       Mas claro que nem tudo foram flores. Ou bambus. Na mesa ao lado, num volume de voz que não nos permitia a discrição de deixar de ouvir, duas ilustres senhoras conversavam, digamos, rumorosamente, sobre viagens e grifes, bolsas e sapatos, jóias e perfumes e todas as coisas essenciais a cada uma delas. Confesso que nos chamou a atenção a quantidade de vezes que o garçom (o mesmo que nos recebeu tão cordialmente) foi solicitado àquela mesa. E todas as vezes com alguma exigência ou reclamação que destoavam da harmonia, da educação e da tranquilidade do ambiente.

       Foi então que aconteceu. A distinta e volumosa senhora havia acabado de chamar, mais uma vez, o rapaz. Fazia um discurso sobre o quanto o atendimento estava deixando a desejar e o repreendia pela demora em trazer a conta. Ele transpirava de nervoso, e polidamente tentava se desculpar, tratando com o máximo respeito e gentileza a quem dessas qualidades, obviamente, não sabia fazer uso.

       Não pude deixar de pensar que se ele dominasse o Bu-Shi-dô ou quaisquer outras artes de guerra, as duas corriam sério perigo, porque até para um samurai, paciência e servidão têm limites.

       O que veio a seguir não foi proposital, eu juro! O meu "hashi-catapulta" foi o culpado. Aproveitando-se da luta injusta entre a cultura milenar do instrumento e a minha falta de jeito, um camarão kamikaze e desgovernado lançou-se como um bólido do meu prato, aterrissando direta e espalhafatosamente no decote da "educada" senhora.

       Depois de suspender a respiração por alguns instantes e arregalar os olhos desejando com esse gesto desviar a decidida trajetória do dito cujo, voltei imediatamente a atenção ao prato e continuei comendo como se nada houvesse.

    O garçom viu, mas fez que não viu. As pessoas à minha mesa disfarçaram magnificamente. Com uma cara de nojo de tirar o apetite da humanidade, a mulher olhou o próprio peito e retirou o petisco do farto “aeroporto”. Passou um guardanapo para limpar as gotas de shoyu que aproveitaram a carona e olhou para todos os lados, indignadíssima, tentando descobrir a origem do projétil. Graças a alguma deidade xintoísta de plantão, não fui descoberta.

       As duas pagaram a conta e saíram, visivelmente aborrecidas. Que pena! Continuamos o jantar, com um comportamento irrepreensível, com uma elegância digna da Vogue, até que as duas desapareceram no portão do restaurante. Aí, a gargalhada foi geral. Passamos o resto da noite nos divertindo com a singularidade do acontecido.

       Na saída, o garçom nos acompanhou até a porta, agradecendo nossa presença com a mesma cordialidade e reverência com que nos recebeu. Só que agora, ele tinha um sorriso largo, agradecido e divertidamente cúmplice. Tenho certeza que se sentiu vingado.


Helena Chiarello


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07/09/11

Na falta (de vontade) do que fazer...

Foto: Anderson Fabiano - arquivo pessoal

.   . Uma das coisas que gosto, quando a preguiça de fazer algo útil me abraça, é espiar os motivos que levam as pessoas a visitarem meus blogs.

..... Isso se torna possível graças ao Feedjit, uma ferramenta espertíssima de live traffic, que me permite visualizar em tempo real as visitas que recebo e registra alguns dados, como o local de procedência, a partir de que página o site foi acessado e, em casos específicos, quais assuntos estavam sendo procurados e que os visitantes esperavam encontrar naqueles espaços.

..... Sempre tenho boas surpresas. Algumas me motivaram a anotá-las para quando me inspirasse a escrever esse texto. E as transcrevo exatamente como foram inseridas na busca do Google.

..... No Revelar, alguém procurou saber “qual é o sentido da vida”. Bem que eu gostaria de ter uma tese completa sobre isso. Uma pessoa buscou “porque se escuta o som das ondas do mar dentro das conchas”. Estar apaixonada pode ser uma excelente razão (as demais não são tão poéticas). Outra queria informações sobre “respiração afogada”. Apesar de não ter escrito especificamente sobre o assunto, tenho algumas (ótimas) teorias a respeito.

..... Já tentaram esclarecimentos sobre “pessoas que tem visões”. Não sei o que andei dizendo por lá que levou a isso. Sobre “crianças inquietas”, até procede, porque às vezes me sinto assim (interiormente, claro). Meu poema “The answer is blowing in the wind” já enganou muita gente à cata da música. Mas “revelar senhas, revelar fotos, revelar o futuro, os sonhos e as formas de revelar o amor” são sempre campeãs de busca. Chego a pensar que o povo gosta de revelações. Algumas, já desejei também conhecer as respostas.

..... No (in)foto, já procuraram “fotos de decoração do altar para a festa de São Francisco”. Não devem ter encontrado. E quem buscou por “caçador de belezas e talentos” (!?) deve ter achado o blog uma porcaria. Não decepcionei totalmente quem pesquisou “fotos estradas de ferro desta catarina” (!), mas não contei o que queria saber quem procurou a “história da árvore de "eucalipito” e “reflorestamento de "pinos”. E fiquei imaginando o quanto deve ser surreal e metálico um reflorestamento assim.

..... Essa semana, no FotoGrafismos, duas pesquisas, no mínimo, intrigantes: “figuras escuras da floresta araucária” e “foto de fantasma de casarões antigos”. Não me lembro, sinceramente, de ter fotografado coisas tão sombrias ou espectrais como essas. Em seguida, alguém com espírito mais científico, mas com uma estranha necessidade de contestar a Lei de Newton, queria ver “fotos de cachoeiras caindo de rio acima”. Fiquei pensando onde diachos estaria a força da gravidade na hora de uma foto assim.

..... Mas de todas, a pesquisa mais divertida talvez tenha sido feita aqui, no Meia Vida Inteira, motivada pela dúvida de alguém: “água na concha para crescer os seios resolve?” Desconfio não ter dado a resposta. Mas sei com certeza que decepcionei demais quem queria um “trabalho pronto sobre Pablo Neruda”. E estou certa também de ter enganado uma porção de gente com a crônica “Efeito Borboleta”, que não deve ter atendido satisfatoriamente à curiosidade científica de quem chegou a ela.

..... Uma pena que, depois de determinado número de entradas, as mais antigas acabam apagadas. Devo ter perdido coisas interessantíssimas, como a que acabei de ler e que me moveu a concluir, agora, esse texto: “epitafio porque se morri de amor”.

..... Tomara que a pessoa que pesquisou tenha apenas cochilado ao digitar e esteja vivinha da silva. Mas que me deu um arrepio por pensar que poderia ter sido uma pesquisa do além, deu mesmo.


Helena Chiarello

27/06/11

FotoGrafias

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal


De vez em quando, nada melhor que calça jeans, camiseta, um tênis velho e confortável, mãos no volante, caminhos inusitados e música. E a tarde e a paisagem inteiras à disposição.

E saio por aí, como quem nunca ouviu falar em técnica ou precisão, apenas com a intuição e a câmera na mão, transformando em pixels as muitas coisas que me impressionam.

É nessa hora, com a mesma Alma Nova que o Zeca Baleiro gosta de cantar comigo, que aprendo a esquecer horários, obrigações e normas e a sentir de perto tudo aquilo que abre clareiras na alma e escreve poemas na emoção.

As árvores e os momentos verdes, céus, estradas, flores, pontes, lagos, entardeceres, sóis, chuvas, lugares que amo e espaços que gosto de ver e estar.

Já pensei que seria maravilhoso poder registrar, além das imagens, os cheiros, as sensações, os silêncios interrompidos por pássaros, rios, cascatas e vento nas folhas. Mas não teria a mesma graça. Bom mesmo é fazer parte do cenário e poder respirar o instante, nutrindo a vida com muita beleza e paz. E a desculpa de fazer fotos me proporciona isso.

Claro, nem tudo são flores. Há barrancos e tombos, atoleiros e imprevistos, espinhos e dedos espetados, mosquitos, cães indesejados e lagartos inesperados. Mas há também os pés descalços na água fria, os joelhos no chão e uma vontade alegre e aventureira que sobe em árvores, que grita e ri de sustos, que descobre caminhos e tenta superar os medos de altura para fotografar cachoeiras incríveis e aquelas vistas da cidade de cima de um muro que, pela localização e “altitude”, bem poderia estar no Guinness.

Vale muito registrar as paisagens urbanas e o encantamento de cenas e imagens que transpiram a poesia de outrora, e transformar em imagens as sensações dos lugares que a vida me possibilita estar. Construções antigas, prédios em ruínas, casarões de um tempo muito anterior a essa modernidade (não menos bela) em que vivemos e que me colocam o pensamento e a emoção dentro de cada um deles, vivendo as vidas, sentindo os cheiros, ouvindo os sons e o eco de muitas histórias guardadas no tempo.

Longe de serem perfeitos, os resultados me animam. E há muito ainda por ver e, em fotos, grafar.

A ideia inicial de minhas brincadeiras fotográficas era mostrar o inverno, o gelo e o frio da minha cidade natal. Agora, são as primaveras, os verões, os outonos... E todas as outras “estações” de tempo, lugar e vida que me chamam lá. E de um jeito irresistível.

Por isso, quando não estou aqui, é porque estou [aqui]. E adorando!


Helena Chiarello
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Sempre que te vejo assim
...Minha velha alma
Cria alma nova
Quer voar pela boca
Quer sair por aí...
[Zeca Baleiro]
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02/06/11

Quem disse que frio é romântico?

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Sábado cinzento, dia glacial. É outono ainda, mas as temperaturas dos últimos dias são de um inverno pra pinguim nenhum botar defeito. Sabe Deus o que vem por aí.

Acordo com preguiça, dou uma espiada no relógio. Já não é tão cedo assim e tenho montes de coisas a fazer. Viro pro lado, dou outra espiada no dia pela fresta da cortina. Tudo pálido e esfumaçado, quase branco. Mais preguiça.

Termômetro, quatro graus negativos, agora. De madrugada deve ter feito uns três graus a menos. Melhor nem ter olhado. Haja disposição para sair da cama. Mas vamos lá, dizem que frio é psicológico. Vou fazer um pensamento positivo-terapêutico para acreditar que nem está tão frio assim, então.

Rotina, um banho pra acordar o corpo. Ligo o aquecedor que não adianta nada. Coragem. Abro o chuveiro. Um ronco diferente me avisa que alguma coisa não está certa. Insisto. A água teima, congelada nos canos, mas acaba cedendo. Quase posso ver cristais de gelo nas primeiras gotas que caem. Arrepiada até os cabelos, fico na torcida que o sistema elétrico vença o frio. Mais coragem. Entro de sopetão embaixo da água. Nem consegui proferir o palavrão que me veio à boca, o queixo tremeu e travou, tão roxo quanto todo o resto. Devo ter batido o recorde de velocidade em banho. Tortura física. Aquilo de que frio é psicológico é tudo mentira.

Visto-me rapidamente, sobrepondo peças de roupa e meias de lã, num efeito estético digno de esquimó. O vapor dentro do banheiro me esconde o espelho. Ainda bem, nem vejo o resultado.

Etapa dois: casa e cozinha. Casa, tudo bem, arrumações rápidas e secas, apesar de frias. Corre-corre, ajeita aqui, arruma ali. Pronto. Agora, cozinha. Desânimo beirando desespero. A pia cheia de louças me olha e ri, sádica. Bendita lavadora de louças que não comprei, mania de achar que algumas coisas são dispensáveis. Arregaço as mangas (ai!) e vou à luta. É a torneira que ri agora, riso rouco de gelo e sarcasmo. Paciência. Aguardo mais um pouco, torneira aberta. Nem uma gota. Vamos ver quem ganha. Uso algumas estratégias. Ruído mais forte, um som de sólido sobre os pratos. O gelo, em cubo cilíndrico cai, liberando a água. Ganhei! Ou perdi? Começo a lavar a louça. Arre!! Essa semana mesmo providencio uma torneira elétrica, juro! Concluo com extremo e arrepiado esforço a tarefa, seco rapidamente as mãos, verificando se não perdi nem um dedo. Estão todos aqui. Cianóticos, mas estão.

Etapa três: padaria, supermercado. Sair à rua, mesmo para compras rápidas, teria sido uma coisa que eu dispensaria hoje. Agora sim, me obrigo a dar uma olhada no espelho. Fica feio ir ao mercado de pantufas? Fica. Coloco algo mais apresentável e lá vou eu. O vento úmido acentuando a sensação térmica me deu de presente, agora, orelhas roxas. Tive a impressão de que se eu tocasse nelas, esfarelavam. Senti saudade de ter cabelos longos. Voltei o mais rápido que pude, guardei as compras, coloquei as palmas das mãos sobre as orelhas (ainda estavam ali!), puxei a gola da blusa de lã sobre o nariz que lembrava o de um artista de circo, devolvi a pantufa aos pés para recuperar a circulação e a sensibilidade.

Obrigações cumpridas, aleluia! Vamos à parte boa. Um café quentinho, abrir e-mails, comentar amigos, ler, escrever. Enrolada num cobertor, óbvio. O calor do fogo não me alcança aqui, nesse cantinho “internético”.

Tentei escrever, comecei três poemas, falando de verão, de calor, de sol, de mormaço, de suor e tudo o mais. Mas o frio, ciumento, não me deixou terminar nenhum deles. As ideias ficaram encarangadas como as mãos que as digitavam. Desisti.

Resolvi escrever sobre o clima dessa sucursal do Polo Norte. O de hoje, especificamente. Isso pra nem lembrar aquele dia que fez os famosos 14 graus negativos que colocaram minha cidade no recorde oficial brasileiro de temperatura mínima. Nem aqueles das infalíveis geadas, nos quais o ar glacial que me invade os pulmões e refrigera o corpo todo me lembra o fantástico sistema daquelas serpentinas pra gelar chope. Nem os de neve (tão lindos, não!??) que frequentemente aqui ocorrem. Melhor nem tocar no assunto.

Ainda bem que amanhã é domingo. Danem-se o frio, as torneiras e chuveiros congelados e o vento cortante. Vou acordar tarde, depois do sol, se ele vir. E ficar torcendo que na segunda-feira eu não tenha que raspar o gelo do para-brisa durante o trajeto até o trabalho e consiga executar tarefas simples como andar, falar e movimentar-me sem o receio de congelar e quebrar no meio de cada uma delas.

Pensando mais além e não sendo tão insensível, se o frio me atinge dessa forma, com todo conforto que tenho, o que dizer de quem não o tem? Tema para um outro escrito, bem menos divertido e imensamente mais sofrido.

Então... Podem pensar o que quiserem e até discordar da ideia, mas frio como esse aqui só é romântico quando eu penso nele, em pleno verão, debaixo de um solzão de rachar, deitada numa cadeira de praia, rodeada de areia e mar por todos os lados.

...Quanto falta pra chegar dezembro?


Helena Chiarello


(Escrita em Junho de 2008, em Caçador-SC, num dos dias mais frios que tive notícia. Republicada hoje, porque o frio que fez aqui essa noite me trouxe sensações bem parecidas).

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02/04/11

Poderosa!

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Acordei hoje, mais uma vez, com a excessiva alegria domingueira do meu vizinho.

Ele adora despertar a si próprio (e a todo o bairro) com o som ligado num volume incrível, colocando a sanidade alheia em colapso quando aqueles ruídos ultrapassam o limite humanamente suportável de decibéis.

É impressionante como numa época de tantas qualidades e novidades musicais, com tanta coisa boa por aí, o cara ainda insiste (e faz tempo isso!) em colocar, quase todos os santos domingos, uma poderosa rainha do funk a cantar a todo volume e, provavelmente, a dançar rebolando a bunda, bem próximo à ainda adormecida janela do meu quarto.

Sacanagem. Nem novidade a música é mais.

Acho que ele tem algum problema. Desconfiômetro avariado, talvez. Perda de memória recente, quem sabe. Ou então, alguma namorada funkeira a quem ele dedica essa serenata matutina. Mas pela berraça amplificada da coisa, penso que ela não deva morar tão perto.

Se quiser falar de amor, fale com o Marcinho... Vou te lambuzar, te encher de carinho...

Não tenho bem certeza do roteiro do que eu sonhava quando fui tão rudemente despertada, mas com certeza a trilha sonora era outra.

...Em matéria de amor, todos me conhecem bem, vou fazer tu vibrar no meu estilo vai e vem...

Essa parte é a preferida dele. Ele canta junto. Fico a imaginar o gesto que acompanha a frase.

...Minha catita doida, vou te dar beijo na boca, beijar teu corpo inteiro, te deixar muito louca...

Decorei a música sim! Mesmo que nem quisesse ou admitisse isso. Até o cachorro do outro vizinho já sabe a melodia e uiva no mesmo tom.

Me virei na cama. Bufei. Falei um palavrão. Apertei os olhos e soquei o travesseiro na cabeça, na vã esperança de fazer sumir aquele baile funk do meu quarto. Tentei dormir mais um pouco. Mas a glamurosa foi mais forte que eu. Tocou uma, duas, três vezes, no mais compulsivo e indiscriminado uso da tecla repeat.

...O funk do meu Rio se espalhou pelo Brasil, até quem não gostava, quando ouviu não resistiu...

Não resisti mesmo, mas do pior jeito. Não é que eu não goste de música, pelo contrário. E talvez eu não me aborrecesse tanto se concordasse com aquele gosto musical.

...Remexe gostoso e vai descendo até o chão...

Era lá que estava a minha paciência. No chão. Pensei coisas inconfessáveis. Tentei afastar a irritação e controlar a vontade de abrir a janela e demonstrar toda a minha educação (ou a falta dela), procurando pensar que se eu não, pelo menos ele e o cachorro uivante estavam felizes com aquilo.

Foi-se o sono, a tranquilidade, a disposição de ficar na cama pensando a vida e contemplando o silêncio. Fui vencida. Levantei, joguei com força as cobertas pro lado.

Tomar banho, tentar não ouvir, arrumar o quarto, tentar não ouvir, organizar as coisas, tentar não ouvir, ir pra cozinha e tentar ouvir menos. De lá o som até que era suportável.

...Vem, vem dançar, empine o seu po... (!!)

Não sei qual foi o motivo. De repente, ele cansou, acho. Ou a homenageada pediu, lá da distância em que estava para, por favor, desligar aquilo. Acabou a festa, o barulho, o cachorro, a música. Suspirei aliviada. Abençoado silêncio!

Quase feliz, comecei a preparar o almoço. Ainda havia esperança de acontecer, enfim, um domingo tranquilo e silencioso.

De repente, do nada, alguma coisa fez compasso. O mesmo ti-tum, ti-tum de antes. Susto. Parei pra ouvir. Nada, tudo quieto. Foi só impressão, aleluia. Troço esquisito. Sacudi a cabeça, me concentrei nas batatas que descascava.

...Glamurosa, rainha do funk, poderosa, olhar de diamante, nos envolve, nos fascina, agita o salão, balança gostoso requebrando até o chão...

Ela estava ali, a poderosa! Instalada feito praga na cabeça. Me fazendo repetir, sem que eu quisesse, aquele bendito refrão e a acompanhar o ritmo com batucadinhas da faca com a qual eu cortava os legumes. Ninguém merece!

A causa eu sei. Lavagem cerebral deve ser semelhante. O efeito, tenho ideia, mas controle nenhum sobre ele. Tentei ficar triste pensando no que eu gostaria de estar fazendo nesse feriado e não pude. Tentei me distrair elaborando mentalmente tudo o que eu tenho a resolver essa semana, mas nada. Nada tirava aquela musiquinha poderosa em me despertar todos os domingos e que se grudou feito chiclete na minha vontade de me livrar dela.

...Se tu não curte o funk pode crê tá de bobeira, bote uma beca esperta e se junte à massa funkeira...

E até terminar o almoço eu já havia cantado a música umas cinco vezes. Mas não rebolei a bunda, juro!
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Helena Chiarello
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(Publicada em 2009, no Recanto das Letras. E relembrada agora, por conta de um "vizinho novo" com hábitos semelhantes...)
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