01/02/2010

Sobre palavras e flores...


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Não há como não reconhecer a essência das palavras.

Revelam-se pelas nuances do que traduzem
assim como salientam-se, pela cor, as pétalas.

E quando elas falam de amor,
são tão banhadas de luz
que resplandecem sobre todas as outras,
exuberantes e inconfundíveis.

Da mesma forma como sobressaem-se nos canteiros,
entre dezenas de flores, indisfarçáveis lírios azuis...
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Helena C de Araujo
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Imagem: Leo Vaz (Flickr)

29/01/2010

Eu sei, talvez...


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É lenta a força que me leva adiante a tentar desfazer os dias, as palavras e os gestos, a desejar não me ferir mais uma vez nessa esperança em ruínas, a tentar esquecer de vez o custo, o peso e a agonia desse meu passo cansado de percorrer o amor de forma tão sincera, cuidadosa e vulnerável.
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Mesmo assim insisto e vou, a disfarçar os tropeços e a tentar não me deixar abater pela certeza de que sempre haverá o espanto, a brisa fria das verdades tecidas, a propositada investida das vozes agudas a emudecer a minha e a espraiada ironia dos risos fáceis a apagar o meu.

(Se ao menos eu pudesse derramar sobre a razão, gota a gota, essa sensação que me faz covas no peito, talvez conseguisse, ainda uma vez, desenterrar a alma.)

Eu sei, talvez, que como o tempo, tudo passa.

Eu sei, talvez, que é só por hora que permaneço aqui, na estridência desse silêncio, a desviar os olhos dessa clareza cortante, a fingir que há um lugar onde os instantes se apagam e toda a memória adormece.

Mas e a dor, como se esquece?
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Helena C de Araujo
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18/01/2010

Depois, é dia


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É quando as horas foram mais longas que gosto de começar o dia assim, com uma alegria quase infantil a saltar da cama, a espiar pela janela os primeiros sinais de luz que veem trazer alívio à noite.
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Gosto desse instante em que a sombra chega ao seu limite e dilui-se entre os raios da manhã.
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Fico a apreciar a paisagem saída da madrugada, molhada de orvalho e confiança. Espreguiço-me demoradamente, ignorando a insônia recente com um encolher de ombros.
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Então respiro comprido, quase feliz por esse prazer insuperável de ver o sol nascendo, por esse gosto imaginário e indescritível de acreditar estarem se derretendo a noite, os pensamentos e os pesadelos à velocidade da luz.
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Helena C de Araujo
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08/01/2010

A menina e o amor


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A menina e o amor
Um conto contemporâneo
___________________________________________ (Anderson Fabiano)
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Era uma vez uma linda menina lourinha nascida lá pelas bandas das terras do sul. Rostinho de alvura imigrante rosetado pelo sol do campo, emoldurado por cachinhos dourados que emprestavam candura de imagem de calendário, pra uma essência recém chegada, plena de planos pro amor.

A menina lourinha cresceu acreditando no amor e esperando dele coisas que dariam sentido a sua vida. Os primeiros amores foram mais que compensados. Amor de pai, de mãe, de irmãos, de amiguinhos tão moleques, quanto necessário e tão próprios quanto merece uma infância.

A vida fez a parte dela e a menininha dourada também. Cresceu e foi mocinha sem nunca abrir mão de esperar o amor.

Na pressa de ser gente grande, nem sabe ao certo se a vida já lhe mostrara o tal amor. Mas, ela esperava.

A mocinha então, amanheceu mulher, num outono qualquer. Sempre lourinha, cacheada e esperando o amor. E amor chegou. Sem cavalo branco, sem espadas reluzentes, sem "olhos verdes e fixos" de um Neruda idealizado, nem tão príncipe, muito menos encantado. E a menina lourinha entendeu haver chegado o amor.

O tempo fez a parte dele e a menininha cacheada também. Acreditou em cada amanhã, em cada nascer do sol, em cada beijo recebido, perdido ou roubado... E uma gota de chuva, de uma manhã imprecisa confidenciou-lhe que o amor, aquele que a menininha dourada queria tanto, inda não havia chegado.

A menina, que foi moça e depois mulher, correu sem destino pelos trilhos abandonados pelo velho trem de sua infância mágica, encontrou um tronco seco, sem o viço de outrora, sentou-se sob sua sombra insegura e chorou a ausência do amor.

Acreditando poder encontrá-lo, singrou veredas, atalhos, desvios, supôs-se feliz aqui e ali, contentou-se com átimos furtados de outros amores, que foram seus em jornadas fugazes, sempre sabendo que o tão esperado, inda não havia chegado.

Um dia, o amor chegou! Viera de outras terras, com feições bem diferentes daquelas sonhadas na infância deixada nos campos daquelas terras do sul. Anunciou-se, não foi reconhecido e sorriu-lhe tantas vezes quantas se fizeram necessárias. A menininha, que foi moça, que foi mulher, que pensou haver encontrado o amor, que quase o desacreditou, não soube o que fazer dele.

O amor, então, sentou-se à soleira de sua porta e contemplou a menina dos sonhos distantes. Ela, dourada como sempre, entrou e saiu tantas vezes daquela casa que acabou acostumando-se com a presença do amor sentado à sua porta, sorrindo-lhe todas as manhãs e esperando.

O amor continua lá. Presente, insinuante, lançando seus sinais.

A menina já não corre tanto e empresta um bom tanto do seu tempo praquele estranho. E ele, com sacra paciência, apenas espera pela menininha dourada, que esperou tanto por ele que ainda não soube que seu sonhado amor, finalmente, chegara.
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Fabiano, querido poeta!
Cada palavra desse conto remete a emoção a uma infância que queríamos sempre presente e viva no coração, pela beleza e pela pureza de cada sonho que nos deu...
Que nossos olhos desacostumem da falta e saibam perceber o amor ali, “na soleira da porta, sorrindo todas as manhãs e esperando”...
Tuas palavras sempre emocionam, porque tocam o coração. Por dentro.
Um beijo, doce como a lágrima que ficou aqui, comovida a esse presente lindo!
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03/10/2009

Eu penso em ti


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Fecho os olhos e permanece essa idéia do instante, essa vontade de reter o olhar, o suspiro, o sonho a desprender-se iluminado, a emoção em voo, a palavra em pouso, o abraço lento, o gesto rendido.
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Percorro a ausência e tento refazer, numa cronologia absurda, o percurso contrário ao fim, o trajeto avesso às horas, onde o hoje fosse o ontem, onde o amanhã fosse o hoje, onde o tempo fosse o agora, onde o sim parasse no sempre.
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Antes não fosse o amor assim tão grande! Antes não me chegasse com essa voz assim tão nítida!
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Eu penso em ti. No meu silêncio eu penso em ti. E em tudo o que poderia ser, deixado em nós e habituado a nãos. E fico a me agarrar em transparências que me fazem ver com clareza tudo o que a distância cega.
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E a saudade fica ardendo nessa ausência interminável de tuas mãos.
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Helena C de Araujo
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12/09/2009

Passado


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Do que eu diria ao passado já se apagaram os pormenores.
E talvez nada tenha a dizer.
Até porque algumas palavras
já se tornaram
só um borrado indecifrável, como pensamentos articulados
pateticamente numa carta antiga que alguma coisa molhou
e o tempo se encarregou de secar.
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Houve um tempo em que até diria
_______________________________________ [ao passado]

que ele não se deu conta de coisas importantes.
Não cuidou de lealdades, de trocas justas.
Escolheu facilidades, superficialidades,
emoções fúteis e disponibilidades.
Não valorizou dedicações
e fez pouco caso de sentimentos e sinceridades.
Até diria que seu engano maior foi menosprezar razões,
subestimar inteligências
e acreditar demais em si e no que julgou perenidade.

Mas corre o tempo e tudo muda.
E há dias aos quais não se deseja voltar.
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O que tenho a dizer
______________________________________ [ao presente]

é tudo o que agora importa.

Já era hora de ser assim.
Já era hora de sorrisos e mãos dadas.
De falar sobre a maciez das coisas.
De ver claro e de frente, sem a luz ferir os olhos.
De caminhar suavemente pelas emoções,
sem raivas e sustos,
sem ironias escondidas em cantos escurecidos.
De fazer planos e esperanças,
de partilhar confianças e verdades.
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Já era hora de percorrer
________________________________________ [o futuro]

como um caminho largo de amor e vida.
E de abraçar as felicidades que me fazem virar as costas,
tranquila e silenciosamente, àquela sombra que deixei pra trás.

Ao presente, dou certezas.
Ao futuro, mãos estendidas.

E ao passado, indiferenças e silêncios.
[Que é onde cabe tudo o que não precisa ser dito].
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Helena C de Araujo
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26/08/2009

É só uma tarde que chove


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Há algo nessa coisa de chuva que me alaga a alma e me põe aqui, a tentar dizer quase sem conseguir manter a voz.

É só uma tarde que chove.

Mas é como se tudo se precipitasse dessa nuvem gigante que são os sentimentos. Nada sobra em seco no pensamento que está para lá de onde alcanço - que é onde pousa a intenção que me acolhe e aconchega.

Com os dedos embargados de distância, escrevo-te, confidente. A pensar em ti como um dia claro de sol. A não me entristecer por essa melancolia de ver o tempo molhando-se quase como um artifício de compaixão para algumas lágrimas que teimam - não de dor - mas comovidas nesse inventar palavras para disfarçar o que dizer a ti.

As gotas lá fora respingando indiferença e eu aqui a achar que podem arrefecer o calor, a sede - e isso tudo que quanto mais me falta, mais meu corpo pressente e arde.

Saboreio essa vontade que me traz inquietude e pressa, momento e gesto, sorriso e voz - juntando tudo numa febre que só o coração conhece. E provo-a devagar, absorta nessa tarde - de chuva, de pensamento, de imagens a nascer e a brilhar em poças de água - à espera de talento e palavras suficientes para conseguir dizer todas essas coisas que me inundam e ao mesmo tempo, inflamam.

Então escrevo-te assim - propositadamente ilógica - como a ansiedade em abolir o tempo.

E a tentar abreviar a distância, insisto o sonho, secreto e íntimo, de onde estás a colocar um sol - imenso antes de arder - nessa tarde que (lá fora) chove.
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Helena C de Araujo
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20/08/2009

Sementes...


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Um afeto, um tempo, esperanças.
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O espaço de um jardim
e uma primavera abismada nas mãos.

E de repente, setembro pode ter ainda mais flores...

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Helena C de Araujo
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06/07/2009

Catarse


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Catarse

Algumas pessoas não conseguem entender
de onde surgem as coisas que escrevo.
É simples. Eu invento.
A grande maioria desses escritos
não tem origem emocional,
ao contrário do que possam pensar
alguns maliciosos desavisados.
Apenas viagem de idéia desocupada.
As coisas surgem no pensamento
e a mão, obediente, registra.
Escrevo o que penso, a forma como sinto.
Se meus erros são físicos,
minhas respostas são emocionais.
Ou vice-versa.
E se curam com palavras.
Escritas ou ditas.
Não aprendi a ser diferente.
Adoro transformar
uma dor de tijolo caído no pé
numa dor de coração partido.
Talvez insanidade, coisa da idade.
Quem vai saber o porquê disso?
Nem eu mesma sei...
Uma vez disse a um amigo
que escrever era catarse.
Talvez eu esteja fazendo uma
"catarse emocional" daquele tijolo físico
que me caiu no pé um dia desses.
Ou "catarse física" de algum tijolo emocional?
Deixe que pensem o que quiserem.
Escrevo, porque a palavra é livre.
E se a (minha) palavra é livre,
o pensamento (dos outros) também é...
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Helena C de Araujo
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Imagem (edit): Wordpress

14/04/2009

Aqueles dias, saudade...



Aqueles dias, saudade....

Hoje corri criança,
na lembrança que veio,
subiu escada,
brincou jardim,
morou a casa e infância de um dia.

Era doce o cheiro da vida,
do pão no forno,
da roupa limpa no varal,
dos afazeres dedicados,
daquela casa.


Era sagrado o som do trabalho,
das ferramentas pesadas,
do ofício árduo,
da incansável rotina,
daquela oficina.

Era sério o olhar corrigindo,
firme a voz
conduzindo
os dias difíceis
de família grande.

Mas eram francos os sorrisos
de alegria simples,
onde tudo se repartia,
gestos do amor
que era o bem maior.

Eram mágicas as noites reunidas
de fé compartilhada,
de visitas bem-vindas,
de histórias contadas,
de sonhos embalados
por mãos que costuravam
roupas e esperanças
e por outras mãos, cansadas,
que tiravam música
de um acordeom...

Hoje corri criança

ao encontro da alegria
que se perdeu pelos tempos,
nos ventos de empinar pipas,
nos céus de contar estrelas,

nas noites de brincar de susto,
nos banhos de rio esquecidos,
nas chuvas, nas tardes,
nas ruas de barro,
nas areias de castelos deixados...

__________________Vozes, dias, vida, sonhos...
__________________Hoje corri criança
__________________na lembrança que veio,
__________________subiu escada,
__________________brincou jardim,
__________________morou a casa
__________________e a alegria de um dia...


__________________E chorei.
__________________Choro vivo,
__________________de pura saudade...

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Helena C de Araujo
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Foto (montagem): Helena C. de Araujo

13/03/2009

Epitáfio


Epitáfio

E por ter sido feliz e ter vivido em sonho
e ter feito do amor minha maior virtude,

quero deixar escrito, no silêncio em que me ponho:

“Também morri de amar mais do que pude”.

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Helena C de Araujo

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(Com permisso, Vinícius...)
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Imagem (edit): Google


01/03/2009

Efeito borboleta



_____"Uma borboleta que bate asas na China pode causar um furacão na América".
_____Efeito borboleta. Termo que se refere às condições iniciais dentro da teoria do caos, que foi tema de um premiado filme de suspense.
_____Segundo a cultura popular, nessa teoria, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e assim, talvez, provocar um tufão do outro lado do mundo.
_____Sempre me senti atraída por essa idéia, mais pela lógica absurda que ela representa do que pela ciência que a explica.
_____Claro que a teoria é muito mais complexa, esse resultado tão dramático se mostra apenas como uma interpretação alegórica do fato. O que acontece é que quando movimentos caóticos (como o movimento de um corpo) são analisados através de gráficos, sua representação passa de aleatória para padronizada e depois de uma série de marcações, o gráfico pronto passa a ter o formato de borboleta.
_____Mas, para efeito de ilustração desse texto, fico com a versão popular, essa fantasiosa, essa da possibilidade fantástica de que o bater de asas de uma simples borboleta possa alterar todo o curso das coisas.
_____Associei a teoria e o filme às emoções.
_____No caso, o “bater de asas” seria uma determinada situação, um estímulo inicial gerador de uma determinada emoção, que pode ser positiva ou negativa. O efeito, poderia ser exemplificado pela facilidade que o ser humano tem de estar sujeito a desenvolver uma infinidade de emoções diferentes, afetos ou desafetos, conforme os acontecimentos e as situações vividas e permitir que elas tomem proporções cada vez maiores.
_____A borboleta bate as asas e lá vamos nós. A “agitação do ar" em torno desse gesto é o que escapa ao nosso controle e pode crescer adquirindo proporções impressionantes.
_____Se as emoções são positivas, despertam experiências agradáveis e prazerosas, como o amor, a alegria, o bem estar e a felicidade. São emoções que aproximam as pessoas. Se negativas, despertam sensações desagradáveis como a raiva, a tristeza, a ansiedade e o medo. Resultado: afastamentos, desentendimentos, dores.
_____Dificilmente nos perguntamos o que realmente sentimos e que consequências terão nossas ações antes de tomarmos certas atitudes. Isso ocorre porque as emoções funcionam como um turbilhão, o “ar movido pelo bater de asas”, e nem sempre temos tempo ou habilidade para compreender o que está se passando dentro de nós e à nossa volta.
_____Os “tufões” seriam as conseqüências disso tudo, que podem ter um papel fundamental nos relacionamentos, na saúde e na qualidade de vida das pessoas.
_____Na Física, quando queremos saber a evolução de um sistema é necessário saber as condições iniciais do problema. Um sistema caótico é extremamente sensível às suas condições iniciais. Isso quer dizer que uma pequena alteração em seu estado inicial pode produzir uma enorme diferença no futuro. Seria assim, o bater de asas o início, e o final, o tufão.
_____No filme, o protagonista é um rapaz que, para resolver seus problemas do presente, volta ao passado e o muda radicalmente. Isso o insere em um ciclo que cria problemas cada vez maiores, envolvendo de forma trágica as pessoas à sua volta. Então ele descobre que alterar o passado não significa controlar o futuro. Com as emoções, nem é possível voltar atrás para alterar o passado, e muito menos controlá-las para que sejam apenas positivas no que há por vir. A vida humana é complexa e dinâmica.
_____O que é possível fazer, para que os “tufões” não sejam tão avassaladores, então, é estar alertas. Primeiro, conhecendo nossas próprias emoções e percebendo como elas influenciam nossa conduta. Segundo, conhecendo como nossa conduta influencia a vida dos outros, sem esquecer o respeito às emoções das pessoas que nos cercam.
_____Uma ação sempre vai implicar uma reação. Um gesto incentiva outro. Um estímulo, inevitavelmente atrairá uma resposta, em igual ou maior intensidade. Quando identificamos o que sentimos, quando temos segurança do que sentimos, podemos perceber com mais facilidade os sentimentos dos outros, e assim, aumentar a tolerância e o respeito, facilitar a comunicação e evitar frustrações, mágoas e desentendimentos.
_____É essencial lembrar sempre dos efeitos, ao permitirmos que nossas próprias emoções, movidas pela vontade de voar, saiam por aí “batendo as asas”. Há pessoas no lugar onde podem ocorrer os “tufões”.
_____Refletir sobre isso pode ser um modo interessante de observar a suavidade das asas de uma borboleta.
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Helena C de Araujo
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Imagem (edit): Amizade (Apenas hoje)

26/02/2009

De ontem, de hoje e de sempre



____Alguns anos atrás, deparei-me com uma tarefa no mínimo esquisita, quando fazia minha especialização em Artes Plásticas.
_____A Orientadora da disciplina de Folclore Brasileiro havia solicitado uma autobiografia folclórica. Pensei: não vou ter nada para escrever sobre isso!
_____Voltei para casa com aquilo me cutucando o sossego, já pensando no que inventaria para não deixar de cumprir o trabalho. Adiei o máximo seu início, quase deixando para a última hora.
_____Um dia, com a menor vontade que tinha, sentei-me em frente ao computador. Rebusquei em minhas gavetas mentais qualquer coisa que eu pudesse relatar. Esforço mental de deixar a testa queimando.
_____Como se começa uma autobiografia? (Irritação!)
_____Com o nascimento da pessoa (No caso, o meu. E faz tempo isso). Mais esforço mental. “Vamos lá, escreve qualquer coisa, a primeira idéia que surgir. É só começar, o resto vem.” Repeti a mim mesma a frase tantas vezes dita aos outros.
_____Comecei a escrever.
_____Nasci no dia quatro de fevereiro, numa quarta-feira, às quatro horas da tarde. (Quase um número cabalístico.)
_____Por ocasião do meu nascimento, minha mãe foi atendida por uma parteira, o comum na época. Escrevi isso, parecendo tolas as palavras.
_____No exato momento do meu primeiro choro, tudo começou a acontecer, sem que eu esperasse ou compreendesse. De repente, lá estava eu, bebê ainda, desvinculada do cordão umbilical e envolta em camisetas do lado avesso para evitar que eu trocasse o dia pela noite (?) e perturbasse em demasia o sono dos outros, sendo lambida na testa onde eram colados (Com saliva alheia!) fiapos de lã da minha própria roupa com a finalidade de curar meus soluços, tomando banho com água de tijolo cozido para curar a icterícia fisiológica, as brotoejas e por aí afora. Nem pude ver se eu era bonita, porque os espelhos da casa estavam todos cobertos para evitar o reflexo pernicioso. (Foi a primeira palavra difícil que aprendi.)
_____Inúmeras vezes enfrentei simpatias e benzimentos contra “quebranto”. (O que seria mesmo isso?)
_____Meu primeiro banho só aconteceu depois de cair o coto umbilical, o qual foi enterrado com todas as honras a que “um pedaço do corpo humano” possa ter direito. (Achei exageradamente dramático!)
_____Pra não dizer que não falei nos chás curativos e milagrosos, tomei vários!
_____Por tudo isso, tinha uma saúde de ferro. Como todo bebê saudável, era exigente. Berrava de manhã à noite e como, aparentemente, não tivesse nenhum mal físico que justificasse a berraceira, as comadres diagnosticaram “arca caída” (Coisa que até hoje não sei o que significa! Mas deve existir, porque a minha caiu, sabe-se lá de onde). E lá foi a minha mãe à cata de benzedeiras e simpatias curativas, pois já estava deixando todo mundo com problemas de audição (Para o que, inevitavelmente, alguém conheceria outra simpatia). Mais um problema resolvido.
_____Minha mãe cantava para me ninar. Essa era a parte melhor de todas. Eram cantigas lindas! Quanta segurança e conforto! Como eram gostosos aqueles momentos! (Eu lembro, eu lembro!)
_____Mas, noites de vigília e berreiros à parte, fui crescendo. Meu primeiro dente foi um sucesso! A tia que o descobriu me presenteou com um objeto de porcelana para que tivesse dentes fortes e bonitos.
_____Comecei a andar com um ano, me transformando numa grande exploradora de armários, gavetas e guarda-roupas, cujas portas jamais poderiam ser esquecidas abertas, não traziam sorte. Esmaguei alguns dedos e assim fui perdendo, aos poucos, a mania.
_____Quando andava pela casa com o guarda-chuva aberto (Brincadeira que eu adorava!), ou corria ao redor da mesa, ou deixava objetos em forma de cruz, era um Deus me acuda! Como brincadeiras tão inocentes poderiam provocar a morte de alguém da família? “Para com isso, menina, não sabe que não presta?” “Não prestava” também deixar os chinelos virados, quebrar espelhos, derramar sal e tantas outras que eu não compreendia.
_____Por volta dos cinco ou sei anos, o que eu mais gostava era de algumas das visitas que meus pais recebiam. Eles chegavam e todos ficavam em volta do fogão de lenha ouvindo os “causos” intermináveis que todos tinham para contar, entre uma cuia de chimarrão e outra. A moral da história era sempre aplicável (Isso eu também lembro. Verdadeiro terrorismo!) a nós, as crianças. Eram histórias de mulas-sem-cabeça, de cachorros que eram enormes e acompanhavam viajantes em noites escuras e chuvosas, mulheres de preto que apareciam munidas de lampiões em lugares estratégicos, de pessoas incrédulas que debochavam de determinado fato e eram castigadas por forças do além, histórias de quaresma, de sextas-feiras e tantas mais.
_____Em consequência disso, voltei a perturbar o sono de minha mãe, mas desta vez era por medo mesmo. E de nada adiantava eu me convencer que “era boazinha” (Pelo menos, na hora de dormir eu era) e que aquelas coisas jamais aconteceriam comigo! Quem me garantia que atrás da porta ou debaixo da cama não havia uma “visagem” sem capacidade de discernimento entre pessoas boas ou más?
_____Por volta dos seis anos, perdi meu primeiro dente (Bem que os espelhos da casa poderiam ser cobertos agora)! Foi a minha primeira grande dúvida: deveria jogá-lo no telhado, no formigueiro, no fogo ou deixá-lo sob o travesseiro? Para não incorrer em erro, a cada dente perdido optava por uma delas. Mas a tal fada do dente era pão-dura.
_____No ano seguinte, comecei a estudar e na escola tive a minha grande oportunidade: eu ia participar do casamento caipira, na festa junina da escola. Foi a glória! Vestida de chita, cabelos trançados e sardas pretas no rosto (Nem precisava, eu tinha muitas)! Este foi um acontecimento que ilustrou meus anos escolares seguintes, até o vestido de chita ficar pequeno.
_____Na escola, a hora do recreio era uma alegria! Quando não brincávamos de roda, sempre havia um jogo diferente: brincar de anel, amarelinha, caracol, peteca ou pião. Foi nessa época que caíram por terra todas as coisas maravilhosas em que acreditava: a cegonha, o coelhinho, o Papai Noel, as bruxas, os duendes e as fadas...
_____Quando eu tinha meus treze ou quatorze anos, era magrela e comprida, “uma tábua”, diziam (E isso eu lembro bem, também)! Todas as minhas amigas já eram “moças feitas” e eu me sentia “despeitada”. Algumas amigas da minha mãe ensinaram que tomar água na concha de cozinha fazia crescer os seios (Desespero de causa)! Nunca tomei tanta água na vida!
_____Com dezesseis anos, este e outros problemas estavam superados. Chegava a vez das “correntes” e simpatias para arranjar ou segurar namorado, tais como escrever nomes em papéis que eram colocados sob o travesseiro, dizer, dizer três vezes o nome de certa pessoa cada vez que tropeçasse, algumas cartas que se recebia e quase morria escrevendo cópias para passar adiante, orações e velas para determinado santo e por aí afora. O mês de junho era rico em datas propícias a pedidos e adivinhações, nas quais se acreditava com tanta força que às vezes até dava certo.
_____No dia do meu casamento, foi um tal de esconde-esconde, pois “não era bom” o noivo ver a futura esposa vestida de noiva antes da cerimônia. Nesse dia, um fato peculiar: eu tinha uma amiga que já havia “passado da hora” de casar. A mãe dela, meio sem jeito, me encomendou o “desencalhe” da moça (Tomara que ela não leia isso)! Entrei na igreja como o nome dela escrito em um papel preso dentro do meu sapato. Eu devia, ao dar os três primeiros passos na igreja, repetir seu nome. Juro que fiz isso porque o papel ficou me cutucando o pé, foi impossível esquecer. Hoje, graças a mim, ela está casada e feliz.
_____Algum tempo depois, tive meu primeiro filho, depois minha filha. E de repente, me vi repetindo algumas coisas que já julgava esquecidas e que jamais pensei que faria.
_____Descobri a alegria de embalar uma criança cantando as cantigas que ouvi e aprendi de minha mãe. Fiz muitos, muitos chazinhos. (Não lembro de ter coberto espelhos. Aliás, ficava horas na frente deles, me "vendo" com meus filhos no colo). Uma das coisas que mais gostava de fazer era sentar-me no chão, brincar com meus filhos e passar maravilhosas horas entre histórias, parlendas, charadinhas, pipas, petecas, cirandas e amarelinhas...
_____Ao me levantar, aquela manhã, com a preocupação de realizar o bendito trabalho e depois, ao conseguir escrevê-lo, percebi o quanto tudo o que vivenciei desde a minha infância ainda está presente nos meus dias. Recordei com alegria todas as coisas que, por tradição e “segurança”, repeti com meus filhos: os chás, os benzimentos, as simpatias, os cuidados...
_____E como dizer, do alto do meu ceticismo que busca explicação científica e lógica pra tudo, que fiz tudo isso com a aquela certeza satisfeita de estar fazendo a coisa certa?
_____Hoje, meus filhos estão adultos. Ao olhar para a história de cada um deles, posso ver sinais de outras conhecidas histórias: a minha, de meus pais, de meus avós... E a tarefa, que no início me pareceu tão enfadonha, me fez deu uma alegria imensa por poder recordar e por sentir que estamos todos no mesmo tempo e no mesmo espaço, acumulando, preservando e dividindo inestimáveis riquezas.
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Helena C de Araujo
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Imagem (edit): Saiba o que são crianças índigo

15/02/2009

Coisas que sei gostar



Há um caminho que gosto de percorrer nas minhas tardes. Não tem barulho, nem concreto, nem rostos, nem pressa. Apenas passos, os espaços, paisagem. É um trecho sobre os trilhos da antiga estrada de ferro, que sempre reservo como a última parte das minhas caminhadas. A calma mora ali. Há silêncio, hortênsias, lírios. Há paz, sensações e lembranças. Gosto desse presente, pedaço de passado, intacto e ao alcance.
...
Hoje, um impulso encostou o ouvido aos trilhos para ouvir a saudade do trem. E um sorriso correu com a infância que veio de repente, a contar cada passo sobre os dormentes que se repetiam com a frequência do coração. Aos saltos, desajeitado, ofegante. Mas feliz, com o simples presente de ser.

E poder estar ali.
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Helena C de Araujo
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Imagem: Trecho da Estrada de Ferro, do ladinho da minha casa - Foto minha.

11/02/2009

Hoje


O relógio do lado, o acordar demorado, a preguiça, a coberta, a cortina entreaberta, molhada a vidraça, a rua e a praça, as nuvens ao léu, o cinza do céu, suave garoa, a brisa tão boa, a cor do jardim, a gota, o jasmim, a hora acordando, a vida chamando, o tempo bem-vindo, o dia, que mesmo chovendo, parece tão lindo!

(Um pensamento florido, um olhar comovido. Porque existem coisas com tanto sentido?)
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Helena C de Araujo
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Imagem (edit): John-Morgan (Flickr)

29/01/2009

Porque lembrar é viver de novo...



...Eu lembro. E tenho saudades. Da casa de madeira, do pátio grande de terra, da horta de cheiros e milhos verdes, do pedacinho de grama, do pé de pessegueiro, do forno de tijolos, do cheiro de pão assado, dos ruídos da oficina, dos carros antigos, dos lençóis no varal, do poço de água pura, do caramanchão de flores lilases, das pessoas, das vozes, dos sonhos, das canções e orações e de tudo que era tão simples e tão fácil de viver. Eu lembro. E tenho saudades daqueles dias descalços. Que hoje eu sei, eram felizes.
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Helena C de Araujo
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Imagem: Filosofia do Nada

23/01/2009

Acaricia mi ensueño...


______Já era tarde ontem, quando a lua veio.
______Ela me encontrou ali, com a falta de sono apoiada à janela, sonhando a noite e olhando a vida.
______O céu e a paisagem. Escuros e calmos. Silêncio bom. Nem havia a rua distante, só o suave murmullo da canção que tocava pela terceira vez.
______Foi nessa hora de olhar e ouvir sem precisar pensar, que ela chegou. Foi afastando as nuvens com suavidade, acariciando mansa o céu, deslizando, iluminando. E finalmente, mostrou-se inteira, esplendorosa, imensa.
______Nunca a vi tão linda!
...Ella aquieta mi herida, todo, todo se olvida!...
______Deitei os olhos por todos os lugares onde ela pousava. O céu, a cena sombreada, aquele pequeno jardim que guardava lembranças de uma chuva de fim de tarde.
...La rosa que engalana se vestirá de fiesta…
______Nunca havia percebido. Brilho de luar nas gotas. Nas flores. Na vida. No mundo.
…No habrá más que armonía…
______Por um instante, tive a sensação de ouvir o murmúrio de um suspirar.
______Penso que foi ela.
______Uma sensação de alegria prateada espalhou-se, no céu e no chão.
______E por eu estar ali, entre um e outro, em mim também.

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Helena C de Araujo
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Imagem: Dream ZipNet

06/12/2008

Acontecências...


Algumas coisas acontecem de um jeito muito gostoso.
É uma lembrança que vem quietinha
e fica sorrindo no pensamento.
É um sorriso contagiante,
um abraço envolvente, um olhar acolhedor.
É a expectativa de momentos, projetos e sonhos.
Coisas gostosas de ver e sentir,
que fazem o dia ficar com aquele sabor
de alegria sem motivo.
Ou com o sabor de todos os motivos do mundo.
As lembranças, os sorrisos,
os abraços, os olhares e as esperas
são como gotas de chuva
numa tarde quente de verão.
Refrescam, animam, dão alento.
E por fim,
colorem o céu com um imenso arco-íris.
E o final dele pousa silenciosamente
bem no meio do coração da gente.
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Helena C de Araujo
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21/11/2008

Carpe Diem



A vida é simples.
A alegria é simples.
O destino, mais simples ainda.
E a felicidade, somos nós que a fazemos.
Basta colocá-la onde queremos que esteja.
E basta estarmos onde ela está.

Carpe diem.

Porque, de inveja, o tempo voa.
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Helena C de Araujo

14/11/2008

Felicidade


Ela chega sem aviso, num repente, como se espreitasse.
Uma surpresa, um telefonema,
um sorriso, uma palavra.
Felicidade.
Não sei dizer onde ela fica quando não está.
Não sei dizer o que ela é.
Mas sei reconhecer quando ela vem.
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Helena C de Araujo
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Foto: Helena C de Araujo (Picasa)

10/11/2008

Coração... Peça de reposição?

______Às vezes fico pensando e até me ponho a rir diante de algumas idéias absurdas e divertidas que me vê à mente.
______Passando, hoje, em frente a uma loja, olhei distraída para os objetos expostos na vitrine. Eram peças de reposição, de todos os tipos.
______Não parei para olhar, mas à passagem percebi que havia uma infinidade delas. Na maioria, de equipamentos eletrônicos. Todas arrumadinhas, com cartazes e etiquetas de preços e ofertas, em displays convidativos.
______Não consegui deixar de rir diante do pensamento: bem que poderia existir uma loja assim, para a reposição de “peças” que não funcionam bem no corpo humano. Uma loja atraente, colorida, bem decorada, com vários departamentos e solícitos atendentes prontos a te colocar nas mãos a “oferta do dia”.
______Acho que eu me divertiria muito passeando entre as estantes e expositores de uma loja assim. Adoraria visitar todas as sessões, mas, com certeza, me sentiria atraída especialmente para uma delas.
______Procuraria a sessão “coração”. Os de verdade.
______E os veria aos montes, de todos os tamanhos e tipos e para todas as necessidades. Estariam cuidadosamente organizados em seqüência, alguns embrulhados em papel celofane, outros pendurados em móbiles atrativos, ou acomodados em caixinhas decoradas para presente.
______Eu pararia diante dessa diversidade e escolheria um.
______Primeiro, observaria atentamente se ele passou por um rigoroso controle de qualidade, que comprovasse e garantisse seu perfeito funcionamento.
______Depois, testaria sua durabilidade e capacidade de resistir a impactos.
______O próximo passo seria perceber-lhe a densidade. Teria que ser resistente, mas deveria ser também suave e macio. Obrigatoriamente pequeno para caber no peito, mas suficientemente grande para guardar uma infinidade de sentimentos bons. Um filtro seria um opcional importante, para permitir que se livrasse brevemente das coisas que entrassem nele e que poderiam insistir em permanecer lá dentro.
______Seria ótimo que, além de tudo, também tivesse uma versão com alarme, para avisar com um sonoro “bip” quando estivesse exposto a situações de perigo que pudessem vir a comprometer irremediavelmente a sua integridade.
______Iria exigir, por fim, um certificado de garantia. A qualquer falha, poderia ser imediatamente substituído por um modelo novinho em folha.
______Nem perguntaria o preço, porque pagaria seu peso em ouro. Na hora de embrulhar, o atendente perguntaria: para presente?
______Eu responderia: Não. É para uso próprio. Mas, por gentileza, coloque-o em uma embalagem longa vida. E à prova de lágrimas, decepções e dores...
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Helena C de Araujo
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Imagem: PeloMundo

09/11/2008

Caixas e carinhos, guardados...


______Dia desses, resolvi fazer uma limpeza em alguns velhos guardados. Sabia que mexer naquelas caixas significava muito trabalho e já vinha adiando essa tarefa há algum tempo.
______Estava lendo alguma coisa sobre Feng-shui que recebi por e-mail. O Feng-shui é uma antiga arte chinesa que busca a harmonia e o sucesso dentro de um determinado ambiente, alcançadas através de certo tipo de energia que é a “força universal da vida”.
______Não entendi muito bem essa filosofia, até porque não procurei me aprofundar no assunto. Mas, por curiosidade, li o artigo. Era bem montado e interessante. Lá dizia que a primeira coisa que se faz quando se quer renovar energias, é desfazer-se de quinquilharias, doando, vendendo, jogando fora, enfim, livrando-se de tudo o que não tem utilidade na casa ou que não se precisa mais.
______Então, mãos à obra. Vamos renovar algumas energias. Abri uma velha caixa, me sentei no chão em frente a ela.
______Comecei a revirar o seu conteúdo com a intenção de jogar fora o que não precisava mais. O primeiro olhar sobre o que estava à minha frente me convenceu que esta não seria uma tarefa fácil.
______Entre as cartas, cartões e antigos convites havia um verdadeiro tesouro: quase uma centena de cartõezinhos e recadinhos confeccionados por meus filhos quando ainda mal sabiam escrever o próprio nome.
______Comecei a olhar, um por um...
______Quantas lembranças maravilhosas havia ali! Datas carinhosamente lembradas, declarações de amor, pequenos pedidos, situações engraçadas, algumas confissões de saudades antecipadas nos cartõezinhos feitos às pressas para se transformarem em pequenas surpresas no meio da minha bagagem quando saía em viagem e outros tantos momentos de forma tão encantadora registrados.
______Em cada palavrinha escrita, em cada coraçãozinho, florzinha ou animalzinho cuidadosamente desenhados, em cada versinho ou frase, revivi emocionada o momento inteiro do qual eles fizeram parte.
______Lembrei dos rostinhos sorridentes com que eles vinham portando aquela pequena relíquia que me seria entregue. Ouvi as vozes, os sons, senti os cheirinhos gostosos, recebi novamente todos os abraços e beijos como se estivesse lá, de novo, na infância deles.
______Fiquei horas nessa “tarefa”. Não tenho palavras para descrever a alegria que esse momento me trouxe. Fiquei imaginando como uma caixa tão pequena era capaz de conter tantas emoções e tantas histórias.
______Com exceção de alguns poucos postais e convites, não consegui colocar mais nada na pilha do que seria “jogado fora”.
______Aí pensei novamente na tal filosofia Feng-shui, tentando descobrir como eu poderia, já que havia me proposto a isso, renovar alguma coisa no que estava ali, à minha frente.
______Levantei-me do chão e das lembranças. Fui até uma loja e comprei uma nova caixa (a mais bonita que encontrei) para preservar por mais vários anos aqueles carinhos feitos de próprio punho pelas duas pessoas que mais amo na vida.
______Ajeitei tudo cuidadosamente na nova embalagem, pensando que a energia do amor que recebo deles diariamente é incrivelmente maior e que não necessitaria desse tipo de gesto para ser sentida e vivenciada, muito menos para ser lembrada.
______Mas pensei também que havia uma energia indispensável e maravilhosamente concreta naquelas pequenas provas de amor ali guardadas...
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Helena C de Araujo
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Eu amei Pablo Neruda



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo:

A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros
lá ao longe. O vento da noite gira no céu e canta.

Quando tive, pela primeira vez, nos olhos e nas mãos os seus poemas, fui atingida. Fulminantemente.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.


Pablo Neruda. Aqueles versos me umedeceram os olhos. Os significados também. Li, reli. Recitei em voz alta, decorei, guardei.
Pablo Neruda. O nome repetiu-se acompanhando as batidas do meu coração. Apaixonei. Sabia pouco sobre ele, então. Só o que (me) interessava. Que escreveu essa obra com cerca de vinte anos, o que me fazia pensar que ele teria os mesmos vinte quando “o conheci”. Eu tinha quase treze. Perfeito! Sabia que era chileno.

Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!


Achei que o Chile nem ficava tão longe assim. Era logo ali, uma simples questão de horas.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Olhei através da fantasia e vi um rapaz jovem, moreno, alto e forte. Com voz de artista de cinema. Imaginei uns olhos verdes, profundos e tristes, olhando pela janela, pensando sobre a pessoa a quem ele escrevia. Imaginei uma camisa branca com as mangas arregaçadas descuidadamente, cabelos em desalinho, debruçado sobre seus versos e paixões. Imaginei e criei. Sonhos e histórias.

Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam minhas asas.


E eu voava. Muitos poemas, alguns recortes colados nos cadernos. Fui colecionando. Cada vez que encontrava algum, em livros, diários de recordações ou semelhantes, copiava ou recortava e guardava. Imaginava um dia conseguir um pôster, enorme, para ter colado na parede do meu quarto, com aqueles olhos verdes brilhantes e tristes, para dar uma última olhada antes de apagar a luz e adormecer sonhando. E o coração, batia. Cada vez mais.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos?

Horas em frente ao espelho, ensaiando. Queria aprender os “olhos fixos”. Olhava os meninos na escola. Fazia “olhos fixos”. Sem graça. Nenhum se chamava Pablo. E nenhum reparou nos meus olhos fixos.

A noite... o mundo... o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho...


A paixão cresceu e me acompanhou pelo tempo em que duraram as minhas outras paixões adolescentes.
Um dia, o choque. O dilúvio. O caos. A professora iniciou o momento (não a perdôo por isso) em que se desfaria impiedosamente meu encantamento. Foi um trabalho de escola. Trabalho em grupo. Fazer o mural da sala. Literatura. Meu grupo “escolhi” poesia. Pablo Neruda. Mas não só. A professora pediu mais. Biografia, imagens, ilustrações. Felicidade! Colar uma foto bem grande no mural. Ficar olhando aqueles olhos verdes profundos e tristes. E quem sabe, fixos.
Mal esperei para ir à biblioteca, depois da aula. E fui. Sozinha, o grupo não podia. Tudo bem, eu faria o “sacrifício”. Entrei atropelando algumas pessoas. Como se tivesse um encontro, eu tinha pressa. Pedi textos, dados, imagens, tudo. A bibliotecária trouxe. Comecei pelos poemas, copiei muitos. De próprio punho e a lápis, era assim que se fazia. Depois, a biografia.
Pablo Neruda. Biografia. Comecei a ler. “Neftali...” Neftali? Puxa, que nome... Mas tudo bem. Tinha um “Ricardo” logo em seguida que compensava. Não chegava aos pés de “Pablo”, mas era bonito.
“Poeta chileno, nascido em Parral....................... em 1904.”
1904! Meu Deus! Nunca fui boa em matemática, mas aquele cálculo se fez sozinho. Saltou do livro e me atingiu num soco o peito, quase me derrubou da cadeira. É isso mesmo? 1904? Não acreditei! 68 anos? Corri abrir os outros livros, achei a foto.
A foto! Se eu ainda não havia compreendido direito, naquele momento eu soube exatamente o que ele quis dizer com “olhos fixos”. Não só. Os braços também. O corpo todo.

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas...

Meus sonhos caíram, passaram do chão, junto com a vontade de continuar o trabalho. Fiquei pálida, tenho certeza. Fechei os livros, ajeitei a mesa, peguei minhas coisas. Olhei disfarçadamente para os lados. Ninguém notou. Saí devagarzinho, a princípio. Agradeci à bibliotecária (com ódio por ter dado o livro). Saí correndo dali com mais pressa ainda do que quando entrei.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.


E não sabia mesmo.
À noite, em casa, pensando no fora homérico, comecei a ler tudo o que havia colecionado. Me senti traída. Queria achar alguma coisa, qualquer coisa, que me fizesse entender o acontecido.

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.

E lembrava da foto.

Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.


E lembrava do quepe xadrezinho de lã na cabeça, igual ao do meu avô.

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.


E do cachimbo na mão.

A princípio não te vi: não soube que ias comigo,
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Mas lembrava mais da poesia.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite...

A poesia! Era isso!
Atingida. Irremediavelmente. Definitivamente.
Era amor, sim. Mas tinha outro foco. Os versos. Aqueles versos que me umedeceram os olhos. Os significados também. Aqueles que li, reli, recitei em voz alta. Que decorei e guardei. Até hoje.
Ainda ensaio os tais “olhos fixos”. Um dia eu aprendo. Um dia. E não posso dizer que amei, usando o verbo no passado. Ainda amo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe...

E eu ouço, Neruda. Desde aquele dia. E sempre.

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Helena C de Araujo
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Foto: Helena C de Araujo (Picasa)

08/11/2008

Nunca mais é tempo demais

Gosto de pensar que as histórias têm apenas princípio e meio. Nunca um fim.
É bom pensar que as pessoas que o acaso afasta de nossas vidas não acenaram uma despedida. Apenas foram, e daqui a pouco estarão de volta.
Pensar assim engana o coração e serve de alento, porque faz com que não nos detenhamos no sofrimento, na saudade e na certeza de um “nunca mais”. Sem um aceno de despedida, ficam as sensações de incerteza
e de espera que dão a doce ilusão de continuidade.
Claro, é inevitável a saudade pelas ausências.
Muitas vezes as lembranças vão arrancar sorrisos disfarçados de “tá tudo bem”... Mas se algumas separações são necessárias ou inevitáveis, prefiro pensar esses momentos apenas como a pausa
de um viajante que descansa à beira do caminho, sem saber exatamente para onde seguirá depois.
Não gosto de dizer adeus. Prefiro o “até algum dia”. Isso me permite parar exatamente no meio da história,
sem o direito ou o dever de chegar ao fim. Porque todo final é triste.
Porque um “fim” pode significar um “nunca mais”.
E “nunca mais” é tempo demais...
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Helena C de Araujo
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Momento



Sempre ouço música, no carro, nos meus trajetos. Deixo as janelas fechadas, ligo o som, aumento o volume.
Gosto desses momentos de "silêncio do mundo". Fico a sós com a música e o pensamento. Às vezes, nem ouço o que toca, porque o volume do pensamento é maior. Outras, canto junto e o pensamento cala.
Hoje, entrei no carro, coloquei Fagner pra cantar. Adoro. Cliquei em "ordem aleatória". Queria uma música-surpresa. Tive duas. Fagner e Florbela Espanca. Ele gravou versos dela. “Fanatismo”, maravilhoso soneto. Musicado ficou ainda mais belo.
Cantei junto, mais alto do que de costume. Mudei o roteiro habitual, como se fizesse um passeio. Afastei-me do centro, do movimento. Peguei uma estrada de campo, dando de presente aos olhos a magnífica paisagem de estação.
Bem-estar, arrebatamento, momento feliz, intenso. Talvez culpa da música. Talvez do trajeto, inusitado e tão bonito. Talvez dos versos. Ou quem sabe, efeito de tudo isso junto?... Não sei. Mas talvez não importem os motivos. O que importa são as emoções que a vida, às vezes, põe de presente no coração da gente. Sem fazer força.
Continuei dirigindo e cantando. E quase tive a impressão de ouvir o coração cantando junto.
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Helena C de Araujo
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Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."
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(Fagner em poema de Florbela Espanca)

07/11/2008

E depois...



Quando a vida passar, eu vou poder dizer que tentei.
Tantas vezes que até me esqueço.

Vou poder dizer que coloquei,
em cada tentativa,
todas as primaveras possíveis.

E se, no final,
eu não chegar com os braços e o olhar floridos,
vou lembrar que meu coração cultivou jardins.

E vou sorrir,
ao sentir o aroma que ficou nas mãos.
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Helena C de Araujo
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Imagem (edit): Imotion

06/11/2008

Definitivamente...


A minha memória é como um dia de chuva.
Se há uma rua deserta e gotas na vidraça embaçada,
há também o riso puro,
a alegria a escorrer na face
e a emoção criança,
em sua eterna teimosia de querer brincar no tempo...
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Helena C de Araujo
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Tempo



As mãos esperançosas do prisioneiro marcam,
na parede fria, os dias que o separam da liberdade.
Determinam-se gravando traços,
contando dias, noites, meses, anos.
Não lhe é dado conhecer, muitas vezes, o tempo
que ainda falta. Mas ele persiste, porque a liberdade
que deseja e sonha, sabe que um dia chega.
A liberdade de ver o sol, de dar o rosto ao vento,
de abraçar a chuva.
Os dias fazem crescer as marcas.
Sua sentença de vida. Prenúncio de liberdade.
Cada marca, cada traço, é um tempo a menos
de clausura e solidão.
O caminho, o fim? A vida.
Tenho marcas, também, nas minhas paredes.
Mas só me deram contá-las ao contrário.
Não as faço dia a dia, sem saber quantas
ainda serão cravadas.
Já estão todas lá, insuportavelmente conhecidas,
implacavelmente determinadas.
Apenas sigo apagando, num conformismo absurdo,
uma a uma, subtraindo a vida.
Não há determinação nessa tarefa, ela impôs-se a mim,
roubando-me a liberdade, negando-me o direito ao sonho.
Os dias fazem morrer as marcas. Minha sentença de sorte.
Prenúncio também, talvez, de liberdade.
Mas quem dera fosse a de ver o sol,
de dar o rosto ao vento, de abraçar a chuva.
Cada marca, cada traço, é um tempo a menos.
O caminho, o fim?...

Tempo...
Eu só queria um pouco mais. Para ter tempo...
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Helena C de Araujo
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Imagem: Nothingandall