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02/06/2011

Quem disse que frio é romântico?

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Sábado cinzento, dia glacial. É outono ainda, mas as temperaturas dos últimos dias são de um inverno pra pinguim nenhum botar defeito. Sabe Deus o que vem por aí.

Acordo com preguiça, dou uma espiada no relógio. Já não é tão cedo assim e tenho montes de coisas a fazer. Viro pro lado, dou outra espiada no dia pela fresta da cortina. Tudo pálido e esfumaçado, quase branco. Mais preguiça.

Termômetro, quatro graus negativos, agora. De madrugada deve ter feito uns três graus a menos. Melhor nem ter olhado. Haja disposição para sair da cama. Mas vamos lá, dizem que frio é psicológico. Vou fazer um pensamento positivo-terapêutico para acreditar que nem está tão frio assim, então.

Rotina, um banho pra acordar o corpo. Ligo o aquecedor que não adianta nada. Coragem. Abro o chuveiro. Um ronco diferente me avisa que alguma coisa não está certa. Insisto. A água teima, congelada nos canos, mas acaba cedendo. Quase posso ver cristais de gelo nas primeiras gotas que caem. Arrepiada até os cabelos, fico na torcida que o sistema elétrico vença o frio. Mais coragem. Entro de sopetão embaixo da água. Nem consegui proferir o palavrão que me veio à boca, o queixo tremeu e travou, tão roxo quanto todo o resto. Devo ter batido o recorde de velocidade em banho. Tortura física. Aquilo de que frio é psicológico é tudo mentira.

Visto-me rapidamente, sobrepondo peças de roupa e meias de lã, num efeito estético digno de esquimó. O vapor dentro do banheiro me esconde o espelho. Ainda bem, nem vejo o resultado.

Etapa dois: casa e cozinha. Casa, tudo bem, arrumações rápidas e secas, apesar de frias. Corre-corre, ajeita aqui, arruma ali. Pronto. Agora, cozinha. Desânimo beirando desespero. A pia cheia de louças me olha e ri, sádica. Bendita lavadora de louças que não comprei, mania de achar que algumas coisas são dispensáveis. Arregaço as mangas (ai!) e vou à luta. É a torneira que ri agora, riso rouco de gelo e sarcasmo. Paciência. Aguardo mais um pouco, torneira aberta. Nem uma gota. Vamos ver quem ganha. Uso algumas estratégias. Ruído mais forte, um som de sólido sobre os pratos. O gelo, em cubo cilíndrico cai, liberando a água. Ganhei! Ou perdi? Começo a lavar a louça. Arre!! Essa semana mesmo providencio uma torneira elétrica, juro! Concluo com extremo e arrepiado esforço a tarefa, seco rapidamente as mãos, verificando se não perdi nem um dedo. Estão todos aqui. Cianóticos, mas estão.

Etapa três: padaria, supermercado. Sair à rua, mesmo para compras rápidas, teria sido uma coisa que eu dispensaria hoje. Agora sim, me obrigo a dar uma olhada no espelho. Fica feio ir ao mercado de pantufas? Fica. Coloco algo mais apresentável e lá vou eu. O vento úmido acentuando a sensação térmica me deu de presente, agora, orelhas roxas. Tive a impressão de que se eu tocasse nelas, esfarelavam. Senti saudade de ter cabelos longos. Voltei o mais rápido que pude, guardei as compras, coloquei as palmas das mãos sobre as orelhas (ainda estavam ali!), puxei a gola da blusa de lã sobre o nariz que lembrava o de um artista de circo, devolvi a pantufa aos pés para recuperar a circulação e a sensibilidade.

Obrigações cumpridas, aleluia! Vamos à parte boa. Um café quentinho, abrir e-mails, comentar amigos, ler, escrever. Enrolada num cobertor, óbvio. O calor do fogo não me alcança aqui, nesse cantinho “internético”.

Tentei escrever, comecei três poemas, falando de verão, de calor, de sol, de mormaço, de suor e tudo o mais. Mas o frio, ciumento, não me deixou terminar nenhum deles. As ideias ficaram encarangadas como as mãos que as digitavam. Desisti.

Resolvi escrever sobre o clima dessa sucursal do Polo Norte. O de hoje, especificamente. Isso pra nem lembrar aquele dia que fez os famosos 14 graus negativos que colocaram minha cidade no recorde oficial brasileiro de temperatura mínima. Nem aqueles das infalíveis geadas, nos quais o ar glacial que me invade os pulmões e refrigera o corpo todo me lembra o fantástico sistema daquelas serpentinas pra gelar chope. Nem os de neve (tão lindos, não!??) que frequentemente aqui ocorrem. Melhor nem tocar no assunto.

Ainda bem que amanhã é domingo. Danem-se o frio, as torneiras e chuveiros congelados e o vento cortante. Vou acordar tarde, depois do sol, se ele vir. E ficar torcendo que na segunda-feira eu não tenha que raspar o gelo do para-brisa durante o trajeto até o trabalho e consiga executar tarefas simples como andar, falar e movimentar-me sem o receio de congelar e quebrar no meio de cada uma delas.

Pensando mais além e não sendo tão insensível, se o frio me atinge dessa forma, com todo conforto que tenho, o que dizer de quem não o tem? Tema para um outro escrito, bem menos divertido e imensamente mais sofrido.

Então... Podem pensar o que quiserem e até discordar da ideia, mas frio como esse aqui só é romântico quando eu penso nele, em pleno verão, debaixo de um solzão de rachar, deitada numa cadeira de praia, rodeada de areia e mar por todos os lados.

...Quanto falta pra chegar dezembro?


Helena Chiarello


(Escrita em Junho de 2008, em Caçador-SC, num dos dias mais frios que tive notícia. Republicada hoje, porque o frio que fez aqui essa noite me trouxe sensações bem parecidas).

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17 comentários:

Ana Paula disse...

Se você não publicasse a data da escrita, não perceberia. Porque, apesar de eu só sentir o reflexo do que se passa aí para baixo, também não vejo romantismo nenhum no inverno. Um abraço quentinho!

Leninha disse...

Helena querida pode fazer o frio que for,mas, prá mim, tua aura é a primavera,explodindo em cores,perfumes e emoções.Tuas palavras tão belas são sempre poemas,porque teu coração é poeta,mesmo quando reclama do frio...que aqui também está forte,os pés,com duas meias e uma pantufa,ainda estão frios,as mãos digitam com dificuldade e o nariz arde(minha irmã diz que parece que tem pimenta no nariz).
Ainda bem que não preciso sair prá "estiva",como você diz,mas mesmo em casa temos que executar algumas tarefas como lavar a louça(graças a Deus tenho torneira de água quente)estender a roupa(aí,se não tem sol o vento maltrata e queima a pele,os lábios e também lamento por não ter longas madeixas)...
Agora,sÃo cinco horas da tarde,já encerrei a minha lida diária e estou a te falar,com minha cachorrinha Ariel aninhada nos meus pés,o que também esquenta e muito...
Amiga querida vou agora ver a nossa Manuela.Te gosto de montão!!!
Bjssssss e abraços carinhosos para você e o querido Barba(só não pode ser Azul),Leninha.

BeijoK disse...

nao gosto mt do frio, prefiro o calor e o verao

Anderson Fabiano disse...

Stella mia,

Esperei uma manhã de sol pra deitar esse coment, mas ele não veio. Então, dentro de moletons e pantufas, com as mesmas mãos cianóticas da crônica, rio em silêncio para não abrir a boca e congelar a lingua. rsssss

É verdade. Nos filmes que povoaram nossas juventudes, a visão de dias nevados remetiam nossa fantasia nas direções mais fantásticas. Mas, vivê-los...

Não fora a força que carregamos em nossos corações e o romantismo esperaria, no mínimo, a primavera.

Ainda bem que somos teimosos. rssssssss

Amo você, Piazinha!

Barba

✿ chica disse...

Helena, tive que rir aqui...

Esse frio só é romântico para os que ficam à dois em frente a lareira, isso se não dormem ali e ainda correm o risco de morrer sapecados...

A começar pelas roupas...peças e peças que nem dá vontade de colocar...quanto mais, após ter tomado um big banho quentinho, o quarto já aquecido, nos enfiamos para debaixo das cobertas e de repente, quando esquentamos, temos que tirar a roupa(ou nos tiram)rsr...


Não acho naaaaaaada romântico. a menos que em fins d semana especiais, vamos à serra e lá, todo clima é diferente. Mas no dia a dia, credo! Salve-se quem puder.


Tua crônica foi linda e divertida e como sempre, viajei nela! beijos,ótimo friozinho pra nós e esse fds por aqui PROMEEEEEEEEEETE!!! chica

Ivani disse...

Oi Helena querida, adorei essa postagem, bem divertida!
Adorei também o comentário da Chica, bem danadinha, né?
Confesso que não gosto de frio. Adoro sol e mar. Acho que por causa da idade, sinto muitas dores no inverno, parece que estou toda estragada!
foi bom ler você novamente. Adoro!
beijos e bom fim de semana.

GEPER disse...

Oi Lê...

Lembro bem deste texto, adoro ler você, isto não é novidade... Lembro também que tivemos um bom "bate papo" sobre o tema, porque te confessei gostar do inverno, lembra? rsrsrs!!!
Te confesso que adorei ver novamente publicado, pois me trouxe à memória o tempo em que ficávamos conversando... Conversando... Trocando mil ideias!!!!
Um beijo grande minha Amiga do Coração!

Leninha disse...

Helena querida,estou em Barbacena,nas Minas Gerais,e o frio que faz me fez vir reler o seu belo,inspirado e enregelado texto,prá me convencer de que o frio aqui nem está tão forte assim,pois já é uma hora da madrugada,está bem frio,mas ainda não estou com os dedos cianóticos e estou com apenas duas blusas de lã.Estou sentada,no quarto de minha netinha Ana Paula,a pessoinha mais deliciosa da face da terra,que me cedeu seu quarto e foi dormir no quarto do irmão,não sem antes me pedir prá falar com a moça das poesias,que ela adora quando as encontra no seu orkut.Recado dado,vou vestir o pijama e me deitar,numa cama que deve estar gelaaaada.
Bjsssss carinhosos meus e de Ana Paula para vc e Barba(AZUL???)

Leninha

manuela barroso disse...

Eheheh!
Helena querida!
O que me fez rir, menina!
Bem...eu não sabia desta sua veia cómico-trágica!
Olhe, há aqui uma canção que se chama..."Eu tenho dois amores... ta ta ta...não qual deles gosto mais..."!
Claro que o seu dom poético me "adoece"...mas esta sua narrativa é de uma vivacidade contagiante! Os termos que usa, o tom irreverente e sarcástico para com o frio...faz de ti uma escritora nata! O pormenor, do dia a dia, o banho, o espelho, olhar pela janela, o cobertor...tudo isso é hilariante porque se passa o mesmo aqui! só que agora aqui é Verão...rs...e o sol aperta...ah..que raiva...estou a fazer!!!!rs!
As torneiras também aqui congelam...mas que se dane a louça...pró quentinho que é bom! Com um chá ou chocoate quente...e se a Leninha estivesse?
Sempre dava uma ajuda!...
Romântico, o frio?
É minha querida...nos "chalets" da Suiiça, onde o ski tira o frio...kkk!
Bom tiras-me do sério! És uma escritora MESMO! E polivaente!
Vou dizer que ADOREI ler e sorrir!
Já tinha visto na célebre crónica do teu vizinho...Uma coisa...não sei como consegues ter esse humor tão apurado! Oh! minha querida amiga...és uma surpresa constante!
Naaaa, nao vou dar os parabéns!
Já os tens...
Ainda vou voltar..ah, vou vou...
Para sorrir mais um pouquinho...ah...e não esqueças as pantufas...rs!
Abraço do tamanho do oceano!

PS: Diz á eninha que hoje fui comentar umas...10 vezes; que se passa com o bog dela!?
"Me ajuda Leninha!"

BeijoK disse...

postagem ta perfeita
amei o texto

Anne Lieri disse...

Helena,morri de rir aqui!Umtexto bem divertido!Não é que goste de rir das desgraças dos outros,mas me identifiquei em vários momentos,pois não tolero frio!O frio me deprime,não me sinto bem vendo aquele céu cinza...rss...gosto do sol,do céu azul,de morrer de calor!...rss...Adorei seu texto!Bjs,

Su disse...

Bom dia amiga querida...
estive por aqui esses dias lendo sua crônica e confesso que ri, mas ri muito... a riqueza dos detalhes da sua "saga no inverno" é divertidíssima... sua veia cômica é fantástica, mesmo com essa tragédia toda, você conseguiu transformar em humor e fez todo mundo rir, tudo bem que foi sofrimento puro, mas ahhh me fez rir, sim!!! Desculpa tá minha amiga...hehehe
Eu como apreciadora do inverno (talvez seja algum tipo de distúrbio... prometo que vou buscar ajuda...kkk), não pude deixar de me ver também em vários momentos, mas sei lá, o frio me cativa, é nostálgico, romântico, combina com lareira, um vinhozinho, um fondue... neve branquinha... uma paisagem inesquecível... amo o colorido das roupas no inverno... poucos ousam, mas é lindo se vestir em cores num dia frio, você já fez isso? Até mesmo o céu no inverno, quando fica azul com aquele vento gelado... acho lindo...rs
Emfim, também amo o sol... aí é outra história, que vou esperar pra ler aqui: Helena num dia quente de puro "derretimento" de verão... Ahhh, vou cobrar essa crônica, ahhh se vou!!! Beijos minha amiga querida, gosto tanto de você... Um super beijo pros dois! Su.

Su disse...

amiga, passei pra rir mais um pouco... e pra deixar um mega beijo pros dois e desejar um lindooooooo final de semana bem romântico!!! Viva o dia dos eternos namorados!

Su e Rê!

Luh Ciecelski disse...

Eu gosto do inverno! Principalmente nos finais de semana quando tenho um cobertor, um chimarrão, a lereira de casa crepitando e meu amor pra esquentar meu coração!! Mas sei também o que é o frio aqui do Sul!
Um beijo

Leninha disse...

Helena querida,chegou o inverno(que não é o de nossa desesperança),mas hoje,aqui não está tão frio,está uma noite bonita e agradável...saí um pouco com Ariel(a cocker do LOVEDAMINHAVIDA)e não senti aquele frio desesperador de alguns dias atrás.
Errei o nome do blog e só muito depois me dei conta...foi bom porque você visitou o Dez Leis...não sei se viu que há bastante tempo,antes de conhecê-la,postei uma crônica linda do seu amado Barba...se não viu,please,volte lá e verá.

Bjssssss com perfume de maracujá para os dois,
Leninha

Vitalina de Assis disse...

Hola amiga!

Belíssimo!

Parabéns pelo blog.

Bjs.

Milla Pereira disse...

Helena, que coisa mais linda, menina! Cada blog mais lindo que o outro, uau! Bjks, Milla