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31/05/2010

You learn

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Não sei por que às vezes gosto de ouvir música mais alto. Mesmo essa, que ainda há pouco sussurrava e se fez ouvir de dentro de um abraço. A mesma que me leva agora a mão ao botão do volume para colocá-lo numa altura que, quem sabe, o pensamento não alcance.

Talvez, para silenciar o tempo.
Talvez, para não ouvir a saudade.
Ou para ensurdecer todos esses quilômetros que te afastam de mim, enquanto.


(É noite. Ainda chove lá fora. Alanis quase grita ao invés de cantar, agora).


Helena Chiarello

28/02/2010

Universos

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Pairamos sobre o instante, naquela noite quente,
a partilhar emoções e palavras, a contemplar silêncio e céus.
Foi quando o olhar aconteceu mais próximo
e quando o tempo, subitamente, pareceu parar.
Tudo à volta deixou de existir e nenhum som mais se ouviu,
só o do pulso que movia a eternidade e o peito.

Ficamos sobre o tempo, respirando lento. A sós e a dois.
Lembro de ter riscado a noite uma estrela. Cadente e fugaz,
mas com o espaço e brilho exatos para um desejo.
Tua mão tocou a minha, em silenciosa resposta,

e o infinito ficou mais perto.

Penso que foi nesse segundo de luz

que o meu mundo se fundiu ao teu e expandiu todo o universo,
alterando-lhe o destino.


Helena Chiarello
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01/02/2010

Sobre palavras e flores...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Não há como não reconhecer a essência das palavras.

Revelam-se pelas nuances do que traduzem
assim como salientam-se, pela cor, as pétalas.

E quando elas falam de amor,
são tão banhadas de luz
que resplandecem sobre todas as outras,
exuberantes e inconfundíveis.

Da mesma forma como sobressaem-se nos canteiros,
entre dezenas de flores, indisfarçáveis lírios azuis...
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Helena Chiarello

29/01/2010

Eu sei, talvez...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

É lenta a força que me leva adiante a tentar desfazer os dias, as palavras e os gestos, a desejar não me ferir mais uma vez nessa esperança em ruínas, a tentar esquecer de vez o custo, o peso e a agonia desse meu passo cansado de percorrer o amor de forma tão sincera, cuidadosa e vulnerável.

Mesmo assim insisto e vou, a disfarçar os tropeços e a tentar não me deixar abater pela certeza de que sempre haverá o espanto, a brisa fria das verdades tecidas, a propositada investida das vozes agudas a emudecer a minha e a espraiada ironia dos risos fáceis a apagar o meu.

(Se ao menos eu pudesse derramar sobre a razão, gota a gota, essa sensação que me faz covas no peito, talvez conseguisse, ainda uma vez, desenterrar a alma.)

Eu sei, talvez, que como o tempo, tudo passa.

Eu sei, talvez, que é só por hora que permaneço aqui, na estridência desse silêncio, a desviar os olhos dessa clareza cortante, a fingir que há um lugar onde os instantes se apagam e toda a memória adormece.

Mas e a dor, como se esquece?


Helena Chiarello
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18/01/2010

Depois, é dia

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

É quando as horas foram mais longas que gosto de começar o dia assim, com uma alegria quase infantil a saltar da cama, a espiar pela janela os primeiros sinais de luz que veem trazer alívio à noite.
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Gosto desse instante em que a sombra chega ao seu limite e dilui-se entre os raios da manhã.
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Fico a apreciar a paisagem saída da madrugada, molhada de orvalho e confiança. Espreguiço-me demoradamente, ignorando a insônia recente com um encolher de ombros.
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Então respiro comprido, quase feliz por esse prazer insuperável de ver o sol nascendo, por esse gosto imaginário e indescritível de acreditar estarem se derretendo a noite, os pensamentos e os pesadelos à velocidade da luz.

Helena Chiarello
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03/10/2009

Eu penso em ti

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal
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Fecho os olhos e permanece essa idéia do instante, essa vontade de reter o olhar, o suspiro, o sonho a desprender-se iluminado, a emoção em voo, a palavra em pouso, o abraço lento, o gesto rendido.
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Percorro a ausência e tento refazer, numa cronologia absurda, o percurso contrário ao fim, o trajeto avesso às horas, onde o hoje fosse o ontem, onde o amanhã fosse o hoje, onde o tempo fosse o agora, onde o sim parasse no sempre.
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Antes não fosse o amor assim tão grande! Antes não me chegasse com essa voz assim tão nítida!
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Eu penso em ti. No meu silêncio eu penso em ti. E em tudo o que poderia ser, deixado em nós e habituado a nãos. E fico a me agarrar em transparências que me fazem ver com clareza tudo o que a distância cega.
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E a saudade fica ardendo nessa ausência interminável de tuas mãos.
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Helena Chiarello
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12/09/2009

Passado

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal
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Do que eu diria ao passado já se apagaram os pormenores.
E talvez nada tenha a dizer.
Até porque algumas palavras já se tornaram
só um borrado indecifrável, como pensamentos articulados
pateticamente numa carta antiga que alguma coisa molhou
e o tempo se encarregou de secar.
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Houve um tempo em que até diria
                                                             [ao passado]

que ele não se deu conta de coisas importantes.
Não cuidou de lealdades, de trocas justas.
Escolheu facilidades, superficialidades,
emoções fúteis e disponibilidades.
Não valorizou dedicações
e fez pouco caso de sentimentos e sinceridades.
Até diria que seu engano maior foi menosprezar razões,
subestimar inteligências
e acreditar demais em si e no que julgou perenidade.Mas corre o tempo e tudo muda.
E há dias aos quais não se deseja voltar.
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O que tenho a dizer
                                                             [ao presente]

é tudo o que agora importa.


Já era hora de ser assim.
Já era hora de sorrisos e mãos dadas.
De falar sobre a maciez das coisas.
De ver claro e de frente, sem a luz ferir os olhos.
De caminhar suavemente pelas emoções,
sem raivas e sustos,
sem ironias escondidas em cantos escurecidos.

De fazer planos e esperanças,
de partilhar confianças e verdades.
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Já era hora de percorrer
                                                                    [o futuro]


como um caminho largo de amor e vida.
E de abraçar as felicidades que me fazem virar as costas,
tranquila e silenciosamente, àquela sombra que deixei pra trás.

Ao presente, dou certezas.
Ao futuro, mãos estendidas.
E ao passado, indiferenças e silêncios.
[Que é onde cabe tudo o que não precisa ser dito].
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Helena Chiarello
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20/08/2009

Sementes...

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Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal


Um afeto, um tempo, esperanças.
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O espaço de um jardim
e uma primavera abismada nas mãos.

E de repente, setembro pode ter ainda mais flores...

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Helena Chiarello
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17/08/2009

Iluminâncias

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

De repente havia mais sol
e as manhãs
eram mais claras.
Os dias eram mais intensos
e pelos espaços do coração
sopravam muito mais sonhos.

E havia mais brilho, brisa e luz,
como se todas as janelas do mundo
estivessem,
de repente, abertas.

E a vida,
enamorada,
passando livre por entre elas.
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Helena Chiarello

06/07/2009

Catarse

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal
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Algumas pessoas não conseguem entender
de onde surgem as coisas que escrevo.
É simples. Eu invento.
A grande maioria desses escritos
não tem origem emocional,
ao contrário do que possam pensar
alguns maliciosos desavisados.
Apenas viagem de idéia desocupada.
As coisas surgem no pensamento
e a mão, obediente, registra.
Escrevo o que penso, a forma como sinto.
Se meus erros são físicos,
minhas respostas são emocionais.
Ou vice-versa.
E se curam com palavras.
Escritas ou ditas.
Não aprendi a ser diferente.
Adoro transformar
uma dor de tijolo caído no pé
numa dor de coração partido.
Talvez insanidade, coisa da idade.
Quem vai saber o porquê disso?
Nem eu mesma sei...
Uma vez disse a um amigo
que escrever era catarse.
Talvez eu esteja fazendo uma
"catarse emocional" daquele tijolo físico
que me caiu no pé um dia desses.
Ou "catarse física" de algum tijolo emocional?
Deixe que pensem o que quiserem.
Escrevo, porque a palavra é livre.
E se a (minha) palavra é livre,
o pensamento (dos outros) também é...
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Helena Chiarello
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